quinta-feira, 28 de julho de 2011

FAZ HOJE 76 ANOS





Através da radiofonia
A melancólica voz
De não sei que melodia,
Ou de quem a canta a sós
Ante um microfone morto
Como que chega ao porto
Quando chega até nós.


Quantos, como eu,
Sentem agora
A atracção de banalidade e céu
Dessa canção
Que foi marcada nos jornais para esta hora
Mas punge o coração.
Ah, nem há hora, nem há emissora.
Num aparelho surdo a que cantar
Que possa enganar
O que o coração chora,
Que possa evitar
Que se levante o véu
Do que se passa nesta hora
Entre a banalidade e o céu.


Que estúpida canção
É, palavra a palavra,
O que esse francês vem cantar
Da sua lavra.
Enchem-se-nos os olhos de lágrimas.
Por que não?
Mas não, não quero chorar.
Um poeta ter lágrimas
Perante um cantar!


Que vergonha para a poesia!
Mas o coração
Com o que quero nada quer,
E vai na esteira de essa voz e melodia
Sem eu saber.




FERNANDO PESSOA, 28 DE JULHO DE 1935

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