segunda-feira, 15 de abril de 2013

FAZ HOJE 85 ANOS





Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstracta e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjectiva...

Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos, 
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser, 
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos, 
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido. 

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido. 
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém.
Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Porque é que me chamaste para o alto dos montes 
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar? 
Porque é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela 
Como quem está carregado de ouro num deserto, 
Ou canta com voz divina entre ruínas? 
Porque é que me acordaste para a sensação e a nova alma, 
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele 
Poeta decadente, estupidamente pretensioso, 
Que poderia ao menos vir a agradar, 
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver. 
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!

Feliz o homem marçano, 
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada, 
Que tem a sua vida usual, 
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio, 
Que dorme sono, 
Que come comida, 
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação. 
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo. 
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.

ALVARO DE CAMPOS,15 DE ABRIL DE 1928

domingo, 14 de abril de 2013

FAZ HOJE 85 ANOS





ADIAMENTO


Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã... 
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, 
E assim será possível; mas hoje não... 
Não, hoje nada; hoje não posso. 
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva, 
O sono da minha vida real, intercalado, 
O cansaço antecipado e infinito, 
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico... 
Esta espécie de alma... 
Só depois de amanhã... 
Hoje quero preparar-me, 
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte... 
Ele é que é decisivo. 
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos... 
Amanhã é o dia dos planos. 
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; 
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã... 
Tenho vontade de chorar, 
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...  
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. 
Só depois de amanhã... 
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. 
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância... 
Depois de amanhã serei outro, 
A minha vida triunfar-se-á, 
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático 
Serão convocadas por um edital... 
Mas por um edital de amanhã... 
Hoje quero dormir, redigirei amanhã... 
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância? 
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, 
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo... 
Antes, não... 
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. 
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. 
Só depois de amanhã... 
Tenho sono como o frio de um cão vadio. 
Tenho muito sono. 
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã... 
Sim, talvez só depois de amanhã... 

O porvir... 
Sim, o porvir...


ALVARO DE CAMPOS, 14 DE ABRIL, DE 1928

sábado, 13 de abril de 2013

FAZ HOJE 97 ANOS




Côa-se através da minh'alma 
Como através dum vitral 
Toda a agonia voluptuosa e incerta 
De uma outra espécie de alma, mais jóia, mais pálio, 
Gémea da minha, mas com Deus de permeio... 

Cai sobre as mãos que alongo 
- Olho-as distraidamente e esqueço - 
Sobre o livro indecisamente lido 
Parte da luz coada pelo vitral em febre, 
E a cor que estagna nas minhas mãos dói-me nos olhos 
Por um esquecimento corpo análogo a sombras... 

Entretanto, não há a igreja, nem a solidão fria e ampla, 
Nem o resto do incenso que faz tremer, 
Nem a consciência de haver o altar pesando na alma... 
Não; só o vitral e tudo isto através dele...

De aí a febre que, como uma antecâmara de templo secreto, 
De templo para cultos inversos, 
Me enche de possibilidades coloridas de meus sentidos, 
A vista e o ouvido e o olfacto tendo só a vista... 

Passos... 


FERNANDO PESSOA, 13 DE ABRIL DE 1916

sexta-feira, 12 de abril de 2013

FAZ HOJE 111 ANOS





Avé Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada
Ouvi a prece tirada
No meu peito da amargura.

Vós que sois cheia de graça
Escutai minha oração, 
Conduzi-me pela mão
Por esta vida que passa.

O Senhor, que é vosso filho
Que esteja sempre connosco,
Assim como é convosco
Eternamente o seu brilho.

Bendita sois vós, Maria, 
Entre as mulheres da terra
E voss’alma só encerra
Doce imagem d’alegria.

Mais radiante do que a luz
E bendito, oh Santa Mãe
É o fruto que provém
Do vosso ventre, Jesus!

Ditosa Santa Maria,
Vós que sois a Mãe de Deus
E que morais lá nos céus
Orai por nós cada dia.

Rogai por nós, pecadores, 
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores.

Rogai, agora , oh, mãe qu’rida
E (quando quiser a sorte)
Na hora da nossa morte
Quando nos fugir a vida.

Avé Maria tão pura,
Virgem nunca maculada,
Ouvi a prece tirada
No meu peito da amargura.


FERNANDO PESSOA, 12 DE ABRIL DE 1902

quinta-feira, 11 de abril de 2013

FAZ HOJE 88 ANOS





Quantos nos deram seu fiel amor 
A quem não damos uma fiel memória! 
Amaram-nos. Parecem uma história. 
O invisível já não tem calor.

De vez em quando lembram, e uma dor 
Esforça-se por não ser transitória. 
Mas vem uma conversa, e foi-se a glória 
De sentir ter quebrado este torpor. 

Deus vos faça ou inscientes ou piedosos, 
Ó mortos que julgamos que lembramos 
E que entre nossas distracções e gozos 

Inconscientemente abandonamos. 
Mas foi sobre vós que os rumorosos 
Ciprestes, deslembrados, derramamos. 


FERNANDO PESSOA, 11 DE ABRIL DE 1925

quarta-feira, 10 de abril de 2013

FAZ HOJE 90 ANOS




PASSAGEM DAS HORAS


Nada me prende, a nada me ligo, a nada pertenço.
Todas as sensações me tomam e nenhuma fica.
Sou mais variado que uma multidão de acaso,
Sou mais diverso que o universo espontâneo,
Todas as épocas me pertencem um momento,
Todas as almas um momento tiveram seu lugar em mim.
Fluido de intuições, rio de supor - mas,
Sempre ondas sucessivas,
Sempre o mar — agora desconhecendo-se
Sempre separando-se de mim, indefinidamente.

Ó cais onde eu embarque definitivamente para a Verdade,
Ó barco com capitão e marinheiros, visível no símbolo,
Ó águas plácidas, como as de um rio que há, no crepúsculo
Em que me sonho possível —
Onde estais que seja um lugar, quando sois que seja uma hora?
Quero partir e encontrar-me,
Quero voltar a saber de onde,
Como quem volta ao lar, como quem torna a ser social,
Como quem ainda é amado na aldeia antiga,
Como quem roça pela infância morta em cada pedra de muro,
E vê abertos em frente os eternos campos de outrora
E a saudade como uma canção de mãe a embalar flutua
Na tragédia de já ser passado,
Ó terras ao sul, conterrâneas, locais e vizinhas!
Ó linha dos horizontes, parada nos meus olhos,
Que tumulto de vento próximo me é ainda distante,
E como oscilas no que eu vejo, de aqui!

Merda p'rá vida!
Ter profissão pesa aos ombros como um fardo pago,
Ter deveres estagna,
Ter moral apaga,
Ter a revolta contra deveres e a revolta contra a moral,
Vive na rua sem siso.

ÁLVARO DE CAMPOS, 10 DE ABRIL DE 1923

terça-feira, 9 de abril de 2013

FAZ HOJE 78 ANOS




Azul, azul, azul, o mar fraqueija
Em orlas brancas pela praia fora.
Só esse som, alegre e antigo, rumoreja
No lúcido silêncio desta hora.


O mais, - quietude, e no horizonte ralo
Um nevoeiro ou bruma ou ilusão
Que é como que um inútil intervalo
Do amplo azul que céu e águas são.


Sossega em mim, de ver, de ver, de ver,
Essa intranquilidade, a mágoa antiga
Que vem de se sentir viver,
Que vem de não poder querer
E de não ter uma alma nossa amiga.


Ah, mas essa dor,
Cheia de consciência do mutável
Da pobreza da vida e do amor
É tão antiga como o mar
E tem marés,
Cessa para recomeçar
Mais uma vez.



FERNANDO PESSOA, 9 DE ABRIL DE 1935