domingo, 5 de dezembro de 2010

Faz hoje 83 anos


Brincava a criança

Com um carro de bois.

Sentiu-se brincando

E disse: Eu sou dois!


Há um a brincar

E há outro a saber,

Um vê-me a brincar

O outro vê-me a ver.


Estou por trás de mim

Mas se volto a cabeça

Não era o que eu qu’ria

A volta não é essa…

O outro menino

Não tem pés nem mãos,

Nem é pequenino

Não tem mãe ou irmãos.


E brinca comigo

Por trás de onde eu estou

Mas se volto a cabeça

Já não sei o que sou


O carro de bois

Depois já parece

Só um brinquedo


O tal que eu cá tenho

E sente comigo,

Nem pai, nem padrinho

Nem corpo ou amigo,


Tem alma cá dentro

‘Stá a ver-me sem ver

E o carro de bois

Começa a parecer


Uma coisa diferente

E ao pé de uma casa

E fico a pensar.



Fernando Pessoa – 5 de Dezembro de 1917

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

POR UMA EDIÇÃO CRONOLÓGICA DA POESIA DO POETA

Sempre considerei que fazer uma edição da Obra Poética do Fernando Pessoa, usando, apenas, a ordem cronológica com que, ao longo da sua vida, os poemas foram sendo escritos, nos daria uma leitura mais próxima da realidade em que os mesmos foram criados. Nessa edição imaginada, os Heterónimos, apareceriam apenas a assinar as suas produções, incluindo, nos Heterónimos, o seu próprio criador.
Dos testes que me foi dado fazer ao longo dos breves intervalos que a minha vida profissional, limitou duramente durante o tempo activo da minha profissão, tinha colhido alguns exemplos claros de que a produção do Poeta era, globalmente marcada por estados de alma, angústias, desgostos, que foram afectando a sua vida humana, de alguém que vive em Lisboa, compartilha esse viver com tertúlias várias, marcando para sempre cafés, como o Martinho da Arcada ou a Brasileira do Chiado. Facto que seria visto como uma perfeita normalidade em qualquer poeta unívocos. Mas o Fernando Pessoa é um poeta plural, a música da sua poesia difere profundamente de entre os seus três Heterónimos principais, - Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos – não sendo tão profunda a diferença entre a do Poeta-ele-próprio, e a do Campos e a do Reis.


Tem sido tema de muita discussão, a sinceridade ou, mais precisamente, a verdade sentida, da poesia do Pessoa. Uns, porque leram mal o célebre poema, Autopsicografia, outros, como o Gaspar Simões, porque, verdadeiramente nunca chegaram a entender o Poeta. Ele disse que “O poeta é um fingidor “, mas nos versos seguintes montra como o primeiro verso era una amarga ironia, ao escrever,” Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente”.


É essa “dor que deveras sente”, que nesta idealizada edição cronológica, nos apareceria, simultaneamente, com a música do Ricardo Reis, do Álvaro de Campos e na toada da matriz inicial, que é o Fernando Pessoa ortónimo. Facto que passa desapercebido, quando se faz a leitura por Heterónimos.


Agora que tenho tido tempo para arrumar ideias e papéis, lembrei-me de criar uma base de dados que tivesse como índices, a data do poema, o Heterónimo que o subscreve, a página e a edição de onde fora recolhido e os primeiros versos da cada poema. Partindo do princípio que fazer essa base de dados para a obra poética completa era, para mim, completamente impossível, tentei encontrar uma solução mais realista, mas que não perdesse a necessária consistência. E encontrei-a numa Edição da Obra do Fernando Pessoa, do Círculo dos Leitores, a que o seu autor, o notável pessoano, Dr.Richard Zenith, chamou “Obra Essencial”. Dessa obra usei os dois volumes, a que foram dados os títulos de “Poesia do Eu” e “Poesia dos outros Eus”. E dentro do primeiro deste volumes, utilizei o conteúdo das páginas 25, até à página 351, que inclui o capítulo intitulado, “Poemas 1908 e 1935”. As restantes páginas, até à 453, incluem, sucessivamente, “A Mensagem” , “Canções da Derrota” “Fausto”, “Rubay’iyat”, Quadras” e “Juvenília”.
Pareceu-me que, para o estudo a que me propus, o carácter específico, da poesia contida nos restantes capítulos, destoaria numa leitura daquilo a que me permito chamar, de poesia solta.


Como é geralmente sabido, a “Mensagem” foi o único livro publicado durante vida do Poeta, e foi-o, muito simbolicamente, no dia 1 de Dezembro, - o dia da Independência - de 1934. Trata-se de uma Obra Prima da Literatura universal, e que, de um modo muito próprio nos fala da História de Portugal, destacando, em poemas lapidares, os nossos Maiores, usando frases que, transcendendo a própria Obra, caíram no uso coloquial corrente, tais como, “Tudo vale a pena/Se a Alma não é pequena”, “Deus quer, o Homem sonha e a Obra Nasce”, “O plantador de naus a haver” (D. Diniz), ou ainda a definição de algumas dessas figuras histórica, como, D. Afonso Henriques (Pai, foste cavaleiro. /Hoje a vigília é nossa. /Dá-nos o exemplo inteiro/E a tua inteira força!”, D. João I (O homem e a hora são um só/Quando Deus fez e a história é feita. /O mais é carne, cujo pó/A terra espreita.), D. Filipa de Lencastre (Que enigma havia em teu seio/Que só génios concebias?). Realço, apenas de passagem, pois o não ter incluído esses maravilhosos poemas, na base de dados, justificava uma explicação.


Desse conjunto excluído, retirei dois extensos poemas, lamentavelmente pouco conhecido, incluídos  no capítulo  “Canções da Derrota”.
O primeiro, um poema de Março de 1934, “Chamada”, que é um chamamento para que o Povo português se assuma no dever de ser o Futuro do seu marcante Passado: “Vibra, clarim, cuja voz diz/Que outrora ergueste o grito rial/ Por D. João, Mestre de Aviz,/ E Portugal!/ Vibra, grita aquele hausto fundo// Com que impeliste, como um remo,/Em El-Rei D. João Segundo/O Império extremo! “
O segundo, “Elegia na Sombra”, um poema de Junho de 1935, e que é a expressão da sua profunda amargura, por sentir a sua amada Pátria a perder-se dos caminhos gloriosos que sempre percorreu. E vai indagando das causas que levaram esta “Terra tam linda com heroes tam grandes, /” a sentir que “Lenta, a raça esmorece, e a alegria/É como a memória de outrem. Passa/ Um vento frio na nossa nostalgia/ E a nostalgia torna-se desgraça.”
São poemas de estrutura semelhante e temas afins; ambos escritos em quadras com rima, o primeiro com 31 quadras e o segundo com 34. Sou tentado a dizer que a falta de resposta ao clarim da “Chamada”, o levou, no ano seguinte, a 5 meses da sua morte, a retomar o tema que o amargurava, agora com o sentido de quem pede responsabilidades, quando pergunta: “ Quem nos roubou a alma? Que bruxedo/ De que magia incógnita e suprema/ Nos enche as almas de dolência e medo/ Nesta hora inútil, apagada e extrema?”
Junto a estes dois maravilhosos e emocionantes poemas, aparece, nesse capítulo, o conhecido poema épico, “Em memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, que, aliás,  está nos antípodas de uma canção de derrota! 


Mas voltemos à base de dados. Ela contém 907 registos, referentes à produção poética de 1908 até 1935, assim distribuída por Heterónimos:
Alberto Caeiro 101 – 11,145%
Álvaro de Campos - 119 – 13,12%
Fernando Pessoa - 502 – 55,35%
Ricardo Reis 185 – 20,40%.
Quanto à distribuição por anos, notemos, em primeiro lugar, que há 22 poemas sem data:
Alberto Caeiro – 1
Álvaro de Campos – 12
Fernando Pessoa – 0
Ricardo Reis – 9.
A produção global por anos, varia dos 5 (1908) aos 110 poemas (1914). A produção do ano de 1914, é a consequência do “nascimento” dos heterónimos, sobretudo do A. Caeiro e do R. Reis, no célebre “dia glorioso” que êle referiu, na famosa carta dos heterónimos escrita para o Casais Monteiro, como sendo o dia 8 de Março de 1914. A seguir apresento um quadro-resumo:




ANO                                   QTD. Poemas
0
22
1908
5
1909
12
1910
7
1911
7
1912
6
1913
25
1914
110
1915
21
1916
31
1917
36
1918
16
1919
25
1920
23
1921
15
1922
9
1923
42
1924
18
1925
12
1926
17
1927
27
1928
35
1929
27
1930
88
1931
44
1932
37
1933
56
1934
88
1935
46
Total
907








Excluindo o já citado ano de 1914, e pelas razões descritas, a produção anual do Poeta, tem poucas o oscilações, notando-se, no entanto, um facto de enorme relevância: de 1930 a 1935, – os últimos anos da sua curta vida –, os números sobem de tal forma que, nesses 6 anos, aparecem 359 poemas, que representam, no total, 39,5%!
E esse total, continuando a fazer uma análise meramente quantitativa, foi distribuído do seguinte modo
Fernando Pessoa – 243
Álvaro de Campos – 61
Ricardo Reis -48
Alberto Caeiro -7




Quando reatou o namoro com a Ofélia Queiroz, em 1929, “vivia obcecado pela sua Obra”, como ela relatou à sua sobrinha, Maria da Graça Queiroz tal como vem transcrito na Edição das “Cartas de Amor de Fernando Pessoa”, do David Mourão-Ferreira. Aliás os textos das cartas desta fase do namoro, demonstram esse sentir do Poeta, dando a entender que se encontrava, não só numa intensa fase de produção, como de “alinhamento” dos seus inúmeros papéis. Convém referir de novo, que ele nos deixou uma arca com cerca de 32 000 papeis, de todo o tipo e formato, tanto manuscritos como dactiloscritos. Por isso a revisão de todo esse conjunto de documentos, de que êle desconhecia o real valor, levou a que os últimos anos da sua vida não tivessem chegado, pese o seu evidente empenho, para pôr as “as coisas em ordem”. E isso criou nele uma enorme pressão que se transferiu para a Ofélia, não só através das cartas que lhe escreveu, mas também, e tendo em conta, as declarações dela à sobrinha, atrás referidas, pelas conversas que iam tendo e que se centravam nesse sentimento de incapacidade de levar a cabo a tarefa que a si mesmo impusera.
Cabe aqui explicar o que pretendo afirmar ao escrever que o Poeta acabou por não ter tempo para pôr “as coisas em ordem”. Não se trata de uma expressão vaga; eu explico. Quando em 13 de Janeiro de 1935 escreveu ao Casais Monteiro a tal carta em que “explica” a génese dos heterónimos, como já referi em pormenor, ele “cria” datas que terão, eventualmente, surgido apenas no decorrer da escrita. Decerto que seria sua intenção dar uma volta aos seus papéis para acertar as datas dos poemas com as que deixou escritas para a posteridade, na carta para o Casais Monteiro. E, realmente, não teve tempo de o fazer…O Fernando Pessoa, escreveu que o A. Caeiro tinha morrido em 1915, e depois dessa data aparecem mais cêrca de 40 poemas, datados, subscritos pelo “falecido”… Escreveu também que o Ricardo Reis se exilara para o Brasil em 1919 e aparecem, pelo menos 132 poemas subscritos pelo R. Reis depois dessa data, o último dos quais, em 13/11/1935, portanto escrito no mês em que o Fernando Pessoa veio a falecer… Neste último caso a “arrumação” seria mais importante, pois a produção do R. Reis até, 1919, foi, quantitativamente, muito inferior a esses 132 poemas…
A sonhada edição, poderia permitir-nos colher um poema escrito numa determinada data; por exemplo, hoje e, - no meu caso – colocá-lo neste blog. Ou comparar poemas escritos na mesma data, com “assinaturas” diferentes. E muito mais coisas interessantes que, através desta base de dados, irei desenvolvendo.
Termino, com um poema que faz hoje 87 anos…


P-HÁ
Hoje que sinto nada a vontade, e não sei que dizer,
Hoje, que tenho a inteligência sem saber o que qu’rer,
Quero escrever o meu epitáfio: Álvaro de Campos jaz
Aqui, o resto a Antologia Grega traz…
E a que propósito vem este bocado de rimas?
Nada. Um amigo meu chamado (suponho) Simas,
Perguntou-me na rua o que é que estava a fazer,
E escrevo estes versos assim em vez de lho não saber dizer.
É raro eu rimar, e é raro alguém rimar com juízo.
Mas às vezes rimar é preciso.
Meu coração faz como um saco de papel socado
Com força, cheio de sopro, contra a parede do lado.
E o transeunte, num sobressalto, volta-se de repente
E eu acabo este poema indeterminadamente.


Álvaro de Campos 2/12/1929

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Os 75 anos da morte de Fernando Pessoa

Completaram-se ontem 75 anos sobre a morte de Fernando Pessoa. Aguardei, até este momento, pelas iniciativas de carácter público e nacional, que um facto desta dimensão cultural obrigaria. Suponho que há um Ministério da Cultura, embora desconheça qualquer prova cabal da sua existência; será, decerto, mais uma repartição pública. Mas há, sob a a tutela da Câmara Municipal de Lisboa, a “Casa Fernando Pessoa”, cuja direcção, justificando a referida tutela, considera que Portugal é só Lisboa.
Tanto quanto me foi dado constatar, a efeméride foi silenciada, nuns casos, e esquecida, noutros. Os 75 anos sobre a morte do Poeta universal que é o Fernando Pessoa, passaram desapercebidos. E trata-se de um facto muito grave, mas lamentàvelmente muito significativo.
A dimensão única do Fernando Pessoa, começou a incomodar os poetas menores desta praça, que se atrevem, já, a irem para o estrangeiro, à custa do Estado, que somos todos nós, participar em leituras da sua poesia e aproveitarem para afirmarem que se congratulam com o facto de se estarem a homenagear poetas portugueses, e não o Fernando Pessoa! Fonte de informação: site do Instituto de Camões. Autor da proeza: Vasco Graça Moura. O mesmo que em 1999 escreveu um livro a que deu o significativo título “Contra Bernardo Soares e outras observações”, publicitando a sua campanha contra o mundo civilizado, que tem o “Livro do Desassossego” como uma obra de dimensão universal.
É pois significativo que este e outros, por razões ainda mais indesculpáveis, silenciem tudo o que respeite ao Fernando Pessoa. Mas que a “Casa Fernando Pessoa” não cumpra com a sua missão, e sendo ela paga por dinheiros públicos, já deverá ser motivo para esta pública reclamação.
Como homenagem, sem dimensão pública, tal como tudo o que se escreve neste blogue, lembramos um soneto bem significativo:
Múrmura voz das árvores mexidas
Por um nocturno, vago, leve vento,
Casa-te com meu triste sentimento
Que paira sobre as campas esquecidas!

De quantas almas, no silêncio idas,
Não há neste momento um pensamento!
Que Deus as guarde do conhecimento
De como estão longínquas e perdidas!

Ah, quão inteiramente eram mortais!
Não fazem falta à vida leve e forte.
Sem eles, os que amavam são iguais.

Quem vai tem em quem fica a pior sorte,
Nós é que aos mortos enterramos mais!
É em nosso coração que vive a Morte!


Fernando Pessoa, 11/4/1925

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Ainda "Caeiro, o Mestre?"

Volto, após um longo e involuntário silêncio, ao tema que estava a debater: Alberto Caeiro, o Mestre?

No seguimento do que escrevi, e porque foi nesse ponto, que me interrompi, retomo ao momento e as circunstâncias em que surgiu, ao Fernando Pessoa, a heteronomia. Digo que a heteronomia lhe surgiu, para deixar bem claro que, é meu entendimento, que ela se foi infiltrando, lenta e imperceptivelmente, no seu subconsciente, não a tendo ele concebido a partir do seu aprofundado racionalismo nem, – como muitos defendem –, resulte de um atavismo irreprimível. É preciso não esquecer que a educação escolar do Poeta, fora feita em Inglês, até aos seus 18 anos; Milton e Shakespeare eram os meus modelos. A sua vinda para Lisboa, para frequentar o Curso de Letras da Universidade, fê-lo reencontrar a sua língua materna, muito provavelmente estimulado pela “docência intelectual” que sobre ele exerceu o irmão do Padrasto, o General Henrique Rosa, com quem conviveu muito proximamente após o seu regresso de Durbun. Será até muito natural admitir que General Henrique Rosa, tenha recebido, de África, pedidos de apoio e acompanhamento familiar. A verdade é que, em 1908, já nos aparecem poemas em português que hoje nos mostram serem a abertura do ciclo do tal Supra-Camões, que ele viria a vaticinar em dois históricos artigos escritos na revista da Renascença Portuguesa, A Águia. Diria mesmo que, começa então, a sua busca interior, que tão alto o levou.

Em Fevereiro de 1909 escreveu um conjunto de seis poemas, que intitulou “Em busca da Beleza”, onde surge já, de modo inequívoco, todo o seu talento poético,

Soam vão, doloridos, epicuristas,

Os versos teus, que a minha dor despreza;

Já tive a alma sem descrença presa

Desse teu sonho que perturba a vista.

Da Perfeição segui em vã conquista,

Ma vi depressa, já sem alma acesa

Que a própria ideia em nós dessa Beleza

Um infinito de nós mesmo dista.

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Assim começa o primeiro desses poemas. E ele, a partir daí, tenta vencer o infinito que “de nós” dista, o conceito ou a ideia da Beleza. A princípio, usando um modo clássico de procurar as palavras que lhe abrissem o caminho. Mas aos poucos vai-se libertando desse modelo, que lhe tolhia o seu pensamento, na sua busca de mais alto e de mais além. E surge o poema que veio a influenciar decisivamente o seu amigo e correspondente, Mário de Sá Carneiro, que nele viu um novo modo de escrever poesia. Refiro-me a “Pauis”. Esse novo modo de escrever poesia, passaria a chamar-se “paulismo”, a que depois foi acrescentado o termo, igualmente inovador “interseccionismo”. Era um deixar jorrar, extasiadamente, as emoções da alma, que são os sentimento, sem qualquer limitação gramatical. Eis como começa esse tão importante poema:

Pauis de roçarem ânsias pela minh’alma em ouro…

Dobre longínquo de Outros Sinos… Empalidece o louro

Trigo na cinza poente… Como um frio carnal por minh’alma…

Tão sempre a mesma, a Hora… Baloiçar de cimos de palma…

Silencio que a folhas fitam em nós… Outono delgado

Dum canto de vaga ave… Azul esquecido em estagnado…

Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!

Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!

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Este poema está datado de 29-3-1913. Quatro meses depois, 4-7-1913, aparece aquele, que, considero ser o poema maior desta fase - “Hora absurda” - .embora a maioria dos estudiosos do Pessoa escolhem um poema de Março, do ano seguinte, - “Chuva obliqua”. Por mim, julgo que o poema “Hora absurda” cria um novo espaço poético, onde as emoções e os sentimentos são chamados e comandados por palavras novas, criando imagens de infinita beleza.

O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas…

Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso…

E o teu sorriso, no teu silêncio, são as escadas e as andas

Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso…

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte…

O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto…

Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia…, e entanto

Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte…

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A nova aragem poética que começou com o “pauis” e se intensificou e aprofundou na “Hora Absurda e na “chuva Oblíqua”, tornou-se, a meu ver, numa tempestade cada vez mais violenta na procura que o poeta iniciara, de modo clássico e calmo, obrigando-o à procura de caminhos menos agitados, simplificando-se, se me é permitida esta expressão. E terá, então escrito os primeiros poemas, que, mais tarde, viriam a constituir o conjunto “O Guardador de Rebanhos”, atribuído a um poeta simples,”tendo os olhos cheios de Natureza”, o Alberto Caeiro, promovido em 1935, a Mestre… Ter-se-lhe-á, eventualmente, colocado a questão “E se a verdade da vida fôsse assim?” E deixou-se tentar pela simplicidade.

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?

Sei lá o que penso do mundo!

Se eu adoecesse, pensaria nisso.

Que ideia tenho das coisas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma?

E sobre a criação do mundo?

Não sei. Pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

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Depois de ter andado por uma espiral infinita à procura do sentido da vida e das coisas, este “E se fosse tudo tão simples? E se afinal fôssemos nós que complicamos?”, foi, durante uns tempos, um refrigério, um momento de paz e de descanso. E escreveu:

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,

Porque Deus quis que o não conhecêssemos,

Por isso se nos não mostrou…

Sejamos simples e calmos,

Como os regatos e as árvores,

E Deus amar-nos-á fazendo de nós

Nós como as árvores são árvores

E como os regatos são regatos,

E dar-nos-á verdor na sua primavera,

E um rio onde ir ter quando acabemos…

E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais seria tirar-nos-nos.

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Quando em 13 de Janeiro de 1935, escreveu ao Casais Monteiro, a célebre carta dos Heterónimos, passou-lhe a idéia do tal “dia glorioso” em que teria escrito de um jacto os “trinta e tantos poemas do Guardador de Rebanhos”, quando, e perante as datas que apôs nalguns poemas tal como estão na Biblioteca Nacional, alguns foram escritos antes e outros depois, havendo mesmo poemas com datas posteriores àquela, que, na referida carta, indicou como tendo sido a da morte, por tuberculose, do Alberto Caeiro, – 1915…E o mesmo acontece com o outro Livro do Caeiro, a que o Fernando Pessoa, chamou “O Pastor Amoroso”, este quase todo escrito em 1929 e, sobretudo, 1930… Se o Poeta não tivesse morrido precoce e imprevistamente, em Novembro de 1935, estes desacertos de datas teriam sido ,naturalmente, corrigidos, quando acabasse a revisão em que se empenhara, para a sua publicação.

De qualquer modo, creio que se não deve dar qualquer relevância a factos desta natureza, fruto da prodigiosa imaginação do Poeta, perante a imensa dimensão da sua Obra. Dias gloriosos, foram todos aqueles em que escreveu a sua maravilhosa poesia, atribuída a qualquer dos seus heterónimos, ou por si mesmo subscrita. . E também todos entendemos o que tem de simbólica, a promoção do Alberto Caeiro a Mestre, do Pessoa, do Reis e do Campos, aceitando o tal, “E se fosse tudo tão simples?” E hoje todo o mundo sabe que só houve um Mestre e um Poeta: o Fernando Pessoa, o maior Poeta do Século XX.

sábado, 25 de julho de 2009

O Mestre e os Heterónimos

Ficou no ar esta questão: Mestre, o Alberto Caeiro? E porquê?

Apenas porque o próprio Fernando Pessoa, na encenação da sua vida interior, assim o disse, sem explicar a razão dessa surpreendente escolha. E surpreendente já que, referindo-se ao Alberto Caeiro, ele havia escrito na carta dos heterónimos: “
Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instrução primária”.E também porque, acrescentara, que, após ter escrito “os trinta a tal” poemas que, prèviamente havia intitulado de “Guardador de Rebanhos”, encontrara o seu Mestre. Não explicou, nem o jovem Casais Monteiro lhe levantou essa questão, porque é que alguém, com “quase nenhuma educação” e “só com a instrução primária”, lhe podia surgir, assim de súbito como Mestre, – a ele Fernando Pessoa, com a sua enorme cultura e com a sua instrução de nível universitário. Aliás, esta sua afirmação, decorria, com uma certa lógica, da publicação, no nº 30 da revista “Presença”, – de que, relembre-se, o Casais Monteiro era director -, de um texto, assinado pelo Álvaro de Campos, com o título: “Notas para recordação do meu Mestre Caeiro”. Mais tarde, em 1960, na já citada edição da Obra Poética do Fernando Pessoa, da Editorial José Aguilar, do Rio de Janeiro, apareceu um texto, assinado pelo Ricardo Reis, em que, num estilo completamente diferente do usado pelo Campos, faz uma análise crítica, da poesia do Alberto Caeiro, atribuindo-lhe um sentido profundamente inovador, enquadrado por uma filosofia perfeitamente coerente. Se não deixa escrito que também ele, Ricardo Reis, o tomava como Mestre, a verdade é que o assumiu através de uma das suas mais conhecidas Odes,- aquela com que abre o Livro I.

O Fernando Pessoa, fez aquela surpreendente afirmação, na carta de 1935, mas a justificação teórica dessa essa surpresa, “mandou-a” dar aos seus outros dois heterónimos, desse modo dando azo a que se possa considerar, que essa justificação não seria possível, segundo a maneira de pensar e de ser do Fernando Pessoa-ele-mesmo. E é, realmente, essa a conclusão que me permito tirar…

As “Notas” do Álvaro de Campos, publicadas na “Presença”, como tudo o que foi editado em vida do Fernando Pessoa, são um trecho, trabalhado, bem estruturado e completo. O que não acontece com o texto assinado pelo Ricardo Reis e, pela primeira vez editado em 1960, que tem lacunas e que, pela sua curta extensão, dá ideia de que iria merecer um maior aprofundamento.

Mas a maior homenagem prestada ao
poeta guardador de rebanhos, foi-nos deixada por dois maravilhosos poemas que se seguem.


Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, o que é feito de ti nesta forma de vida?
Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada,
Alma abstracta e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjectiva…

Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, o meu coração não aprendeu a tua serenidade,
Meu coração não aprendeu nada,
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu, nem outro nem ninguém.
Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Por que é que me chamaste para o alto dos montes
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?
Por que é que me deste a tua alma se eu não sabia o que fazer dela,
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Por que é que me acordaste para a sensação e a nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!

Feliz o homem marçano,
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve, ainda que pesada,
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio,
Que dorme sono,
Que come comida
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino do homem é ser escravo.
Acordaste-me, mas o destino do homem é dormir.



ALVARO DE CAMPOS 15/4/1928


Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Como nossas mestras
E os olhos cheios
De Natureza…

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O Tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis, sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.


RICARDO REIS 12/6/1914


O Campos, de um modo explícito e dramático e o Reis de um modo contido e interiorizados, ambos se assumem como discípulos do Caeiro. Um, sentindo tudo de todas as maneiras, outro, pensando tudo de todas as maneiras, mas ambos evocando o Mestre, cada um a seu modo.

Até hoje, ainda não saiu da prodigiosa “arca-que-já-o-não-é”, – o seu conteúdo está agora, devidamente (?) catalogado na Biblioteca Nacional –, nenhum texto em que o Fernando Pessoa, ele-próprio, nos explique a razão porque, em Janeiro de 1935, se assumiu como discípulo do poeta, guardador de rebanho. Esse silêncio conduz-nos à busca do que parece ser uma intencional omissão.

Da análise que fizemos mais atrás da génese dos heterónimos, foi deixado claro que eles surgiram na imaginação do Poeta, inicialmente de modo imprevisto, como uma saída para os impasses que o seu pensamento foi sofrendo, no aprofundamento dos problemas do Ser e do Estar.

A poesia em inglês,da sua adolescência em Durban, na África do Sul, escrita sob a influência directa dos poetas ingleses considerados clássicos, é também ela uma escrita em termos de um grande formalismo clássico, por isso sujeita ao espartilho da métrica e da rima. Espartilho que ele tentou quebrar, mais tarde, já em Lisboa, procurando temas tão ousados que, como ele próprio confessou aos seus “discípulos”da “Presença”, nunca seria capaz de utilizar em português. Há excepções, “
35 sonets”, “Inscriptions” ou “The mad fiddler”, e alguns poemas avulsos. Mas são excepções, mais no tema, que não no estilo; desse só se libertará e criará um caminho novo, na poesia em português. Antes disso, foi e é, um poeta inglês, do século dezanove, que a Inglaterra desconhece. Embora tenha continuado sempre a escrever poemas em inglês, mesmo até 1935, ano da sua morte, não deixa de ser curioso referir que esses poemas dispersos se assemelham à traduções de poemas portugueses para inglês… Um Eng. Álvaro de Campos “traduzido” para inglês…

Mas essa libertação foi lenta. Com vinte anos, a beleza do que nos deixou ,decorre do sonho de poder viver uma outra vida e da amargura de sentir amarrado ao vazio do seu viver quotidiano. E este trajecto só nos surgiu com alguma clareza, depois da edição crítica, da Imprensa Nacional, que apresentou, em volumes separados, os poemas não atribuíveis a qualquer dos heterónimos, de 1915/1920, 1921/1930, 1931/1933 e 1934/1935. E mais claramente ainda, quando a Editorial “Assírio & Alvim” começou a publicar a Obra do Fernando Pessoa, sob a direcção do Richard Zenith, um americano que veio para Portugal, “viver” a sua paixão pelo nosso grande poeta e nos ofereceu, nos seus prefácios, uma visão inovadora de toda a Obre pessoana. Com uma equipa de reconhecida competência, fez um nova leitura dos originais do espólio de Pessoa, existentes na Biblioteca Nacional e cuja difícil caligrafia tem criado variações nos textos editados . No volume em que começa a apresentar a poesia do Fernando Pessoa-ele-próprio, de 1908/1914, claramente se constata a evolução do jovem Pessoa, do seu amadurecimento, tanto temático como estilístico.

E vale a pena determo-nos um pouco por aqui, para melhor se compreender o surgimento dos heterónimos.

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