sexta-feira, 4 de outubro de 2019

FAZ HOJE 89 ANOS





Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes -
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem).
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro.
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar a mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei-de arrumá-la e fechá-la;
Hei-de vê-la levar de aqui,
Hei-de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

ÁLVARO DE CAMPOS, 4 DE OUTUBRO DE 1930


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

FAZ HOJE 104 ANOS





É interior à minha mágoa
A alegria do dia claro...
Oh nudez trémula da água...

Por que me sinto eu desolado
De haver tanta calma e alegria
E nenhuma em meu ser cansado...

Acaso não me bastaria
Olhar a alegria da terra
E de ser alegre com o dia?

Ah, ensina-me, ó Natureza,
A dar minha alma inteiramente
À calma da tua beleza

A não ter alma salvo a hora
A pertencer-te, ampla alma rente
À nossa alma geradora

Qualquer cousa que não seja esta
Agonia do pensamento
Que é o que do meu ser me resta...

Sopra, sopra, sopra, vento...
Grande invisível alma em festa...
Que há entre mim e o momento?

FERNANDO PESSOA, 3 DE OUTUBRO DE 1915


quarta-feira, 2 de outubro de 2019

FAZ HOJE 104 ANOS





Quem és tu, planta?
Teu vulto espanta
Meu olhar quedo
Que te olha em medo...

Quanto mais ponho
Em ti o olhar
E decomponho
Ver-te em pensar,

Mais me parece
Que o vulto teu
E um rosto
(...)

Tudo tem rosto
Tem tudo olhar...
Névoa-antegosto
Do decifrar!

Sobe em meu ser
Um medo a Deus...
Quero não ver
Os mudos céus...

Porque o seu claro
Azul sem fim
Com um olhar sem olhos
Olha para mim..

Paro em meu frio
Limiar da alma...
Como o arrepio
Que cerca a calma

Em que me cerco
De Deus e teu
E em mim me perco
Por todo o céu.


FERNANDO PESSOA, 2 DE OUTUBRO DE 1915


terça-feira, 1 de outubro de 2019

FAZ HOJE 100 ANOS





INSCRIÇÕES

1
Vasta é a terra, inda mais vasto o céu.
O dia, a treva o despe e o sol o veste.
Escolhe, e o que escolheres será teu,
Mas não lamentes o que não escolheste.

2
De uma villa romana entre ciprestes
A vida ao longe viu, como a uma estrada.
Seu buscado destino não foi nada.
Vós, deuses, destes; sabeis porque destes.

3
A águia do alto desce para erguer-se.
Leva a presa, deixou o medo. Ai,
O sonho desce só para perder-se...
Águia morta, que desce porque cai.

4
A noite chega com o luar no rasto.
A lua fria sobrevive à noite.
Meu coração não tem onde se acoite.
Lua fria no dia em que me arrasto.

5
Meu coração, pudesse a treva sê-lo!
E eu ter a lua por tristeza minha.
Mas a vida é dos outros, é mesquinha
A cousa obtida, (...)

6
Páginas mortas com perfume vago -
Antologia grega... A treva desce
Sobre o mundo, viver é aziago
E o que foi a alma com a sombra esquece.

7
Navio que te afastas do meu vulto,
Portos para onde eu cismo, e não vou,
O Destino te livre do insulto
De seres quem eu sou sem ser quem sou.


FERNANDO PESSOA, 1 DE OUTUBRO DE 1919