quinta-feira, 27 de junho de 2019

FAZ HOJE 90 ANOS





ACASO

No acaso da rua o acaso da rapariga loura.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal de nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loura,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Porque todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo o que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estarei eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loura?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal...

Só eu, de qualquer modo sou o mesmo, e isso é o mesmo também.

ÁLVARO DE CAMPOS, 27 DE JUNHO DE 1929


quarta-feira, 26 de junho de 2019

FAZ HOJE 90 ANOS





ASSOUPISSEMENT

Canta-me, canta, sem parar,
Sem nada querer conseguir,
Uma canção que faça sonhar...
Sem fazer sentir...

Estou como se tivesse pena.
Não conheço ninguém no mundo.
Canto que a noite está serena
E qualquer história é amor profundo...

Tudo serve... O luar, o rio,
A barquinha que está a boiar...
Tudo menos este fastio
De desejar e de pensar...

Canta, não queres, bem sei...Nada...
Deixa-me desejar não ser
Com a alma leve e descansada...
Dormis, vestígios do saber?

FERNANDO PESSOA, 26 DE JUNHO DE 1929


terça-feira, 25 de junho de 2019

FAZ HOJE 107 ANOS





Põe-me as mãos nos ombros...
Beija-me a fronte...
A minha vida é escombros
A minha alma insonte.

Eu não sei porquê,
Meu dês de onde venho,
Sou o ser que vê,
E vê tudo estranho.

Põem a tua mão
Sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão,
Sonhar é sabê-lo.

FERNANDO PESSOA, 25 DE JUNHO DE 1912


segunda-feira, 24 de junho de 2019

FAZ HOJE 85 ANOS





O cão que veio do abismo
Roeu-me os ossos da alma,
E erguendo a perna - o que eu cismo -
Mijou no meu misticismo
Que me dava a minha calma.

O cão veio de onde dorme
Aquele anseio que tenho
Por qualquer coisa de enorme
Que indistintamente forme
A forma de quanto estranho.

E depois de isso completo
O cão que veio do abismo
Que estava inteiro e repleto
Fez sobre tudo o dejecto
Que é hoje o meu misticismo.

ÁLVARO DE CAMPOS, 24 DE JUNHO DE 1934