domingo, 27 de janeiro de 2019

FAZ HOJE 92 ANOS




Olho os campos, Neera,
Verdes campos, e penso
Em que virá um dia
Em que não mais os olhe.

Isto se o meditar,
Me toldará os céus
E fará menos verdes
Os verdes campos reais.

Ah! Neera, o futuro
Ao futuro deixemos.
O que não está presente
Não existe pra nós.

Hoje não tenho nada
Senão os verdes campos
E o céu azul por cima.
Seja isto todo o mundo.

RICARDO REIS, 27 DE JANEIRO DE 1917


sábado, 26 de janeiro de 2019

FAZ HOJE 102 ANOS





Já sinto em sonhos sobre eu 'star morto
A erva crescer,
E como a noiva que vê do porto
A nau crescer

Que traz seu noivo e chora por tê-lo,
Porque, chegado,
Morre a feliz 'sperança de vê-lo
E a 'sperança é bela.

Assim... não sei... sobre eu estar morto
A erva...

Mas que tem isso com eu 'star morto.
Sinto-o e não sei...

Morre a feliz 'sperança de vê-lo,
E tê-lo é perder querê-lo ter ao lado.

FERNANDO PESSOA, 26 DE JANEIRO DE 1917


sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

FAZ HOJE 90 ANOS




Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro,
Loura débil...
Esse olhar para mim casual como um calendário...
Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico..
Um agradecimento...
Perfeitamente...
Gosto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve
De conversas que não chegou a haver.

Há gente que nunca é adulta na prática!
Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta - prática -
E a que chega a ser adulta e prática morre sem dar por nada.

Loura débil, figura inglesa absolutamente portuguesa,
Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci...
É claro que não me importo nada contigo
Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo,
Mas o encontrar-te dá som ao dia e ao desleixo
Uma poesia de superfície.
Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida...

Loura débil, feliz porque não és inteiramente real,
Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real,
E nada que vale a pena ser real vale a pena.

ÁLVARO DE CAMPOS, 25 DE JANEIRO DE 1929


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

FAZ HOJE 102 ANOS



O TRAIDOR

Puseram-no contra a parede
Com os olhos vendados.
Parou um silêncio... Uma sede
Tomou-o... Houve passos afastados...

A casa branca sorria
No seu passado de infância...
No ar sem aroma havia
A sua alegre fragrância...

A mãe a beijá-lo... O arco
A meio do quintal...
Uma voz... A luz no charco
Viu tudo que fez mal...

Depois a cabeça loura,
Os olhos azuis, a voz
Primeiro... à porta....a hora
(...)

O seu sorrir, o olhar
Que lhe deu tudo, o instante
Em que se viu debruçar
Fogo... disse o comandante.

FERNANDO PESSOA, 24 DE JANEIRO DE 1917