sábado, 26 de maio de 2018

FAZ HOJE 103 ANOS





Trouxeram-na morta,
Tirada da água...
Trouxeram-na morta...
Tocaram os sinos
Por toda la magoa
De anciões e meninos...

Trouxeram-na quatro
Seus olhos sem par
Não tinham fulgor
Trouxeram-na quatro.
Seu noivo, o alvar,
Seu irmão maior
E um que a viu achar.

No rio a encontraram,
No rio a entreviram...
No rio a encontraram
De brancuras corando...
Seu nome era brando...
Do rio a tiraram...

Sua boca era muda...
Algas seus cabelos
Sua boca era muda...
Seus olhos - só vê-los
Sonhava revê-los
Na antiga postura
Em que eram tão belos...
No rio a encontraram
À tarde, à aventura...

A quatro a trouxeram
P'ra casa dos pais...
A quatro a trouxeram
Chorando, chorando
P'ra casa dos pais...
Seu nome era brando
Como a dor sem ais...

Trouxeram-na morta...
Tão branca, sem par
Sua (...) absorta,
Só em se deixar
Ficar assim morta.
Que importa? Que importa?
Deus há-de explicar.


FERNANDO PESSOA, 26 DE MAIO DE 1915


sexta-feira, 25 de maio de 2018

FAZ HOJE 84 ANOS




O a quem tudo é negado
Tem o mundo por fado,
O a quem ninguém ama
Tem vida por chama
Esse a quem tudo falta,
Por baixo, a alma é alta.

São muitos os caminhos
E alheios os vizinhos!
São largas as estradas
E as distâncias erradas,
Mas sempre sobra à alma
A fé que a faça calma.

Assim, sem espada ou lança,
Vou, como uma criança!
Pela estrada cantando
Porque vou confiando.
Vou sem medo e sem frio
Não sei em que confio.

FERNANDO PESSOA, 25 DE MAIO DE 1934


quinta-feira, 24 de maio de 2018

FAZ HOJE 103 ANOS




Ando com a minha alma ao colo,
Como se fosse uma criança,
Uma tristeza, um desconsolo,
Um amor ao que não se alcança...

Em que longínqua ilha deserta
Poderei ser o rei que fui?
Ao pé de que rio que flui
Ao pé duma janela aberta?

Essas horas ao pé da água
Seriam tão consoladoras
Das tristes, lentas, tardas horas
Que florescem na minha mágoa...

Vozes de crianças nos parques...
Arcos velozes nos jardins...
Não quero, ó alma, que tu arques
Com a dor nítida dos Fins...

Quero antes que, pendente duma
Janela ao pé do rio lento,
Deixes cair teu pensamento
No rio lento sem espuma...

E assim o percas, assim vá
Por esse rio, além da vista,
À deslizada e a alvar conquista
Das margens que aqui não há.

Teus brincos velhos, tua avó
Usava-os e era tão feliz...
Como o meu coração está só...
Não o acompanha o que tua voz diz.

Meus olhos vão na água vista
Sob essa janela sonhada...
Meus olhos, esse ver que dista
De mim como eu daquela estrada

Perdida que podia, ó alma,
Conduzir-me ao teu gesto lento,
E casar-me em teu pensamento
Com a longínqua e última calma.

Mares distantes, ilhas pondo
Flores e florestas no mar...
Ó grande solidão lunar
Entre as cousas que vou supondo!...

Maturadas as confidências
Que fiz um dia ao teu requinte,
Guardo minha alma por acinte
E a espada sangra entre as consciências...

FERNANDO PESSOA, 24 DE MAIO DE 1915


quarta-feira, 23 de maio de 2018

FAZ HOJE 102 ANOS




Não sei, ama, onde era
Nunca o saberei...
Sei que era primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha,
Porque era todo meu?
(Filha, quem o adivinha?)

E o jardim tinha flores
De que não me sei lembrar...
Flores de tantas cores...
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)

Qualquer dia viria
Qualquer cousa a fazer
De aquela alegria
Mais alegria nascer
(Filha, o resto é morrer...)

Conta-me contos, ama...
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama
Que eu fui nessa solidão...
(Filha, (...) )

FERNANDO PESSOA, 23 DE MAIO DE 1916