domingo, 26 de julho de 2015

FAZ HOJE 81 ANOS





Quem sabe se o que pensamos
Não é só o que esquecemos.
Vamos, remando, sob ramos
Do rio, assentes nos remos;

E uma visão mais remota
Que as margens e o arvoredo
Torce sem querer a rota
Que se seguia em segredo.

Cada rio tem dois rios,
Por um íamos remando
Sem atenção nem desvios,
Contentes de ir avançando.

Mas quando tristes e quedos,
Íamos remando a fio,
Sentimos que os arvoredos
Cobriam um outro rio.


FERNANDO PESSOA, 26 DE JULHO DE 1934


sábado, 25 de julho de 2015

FAZ HOJE 99 ANOS



Ó mera brancura
Do luar que se esfolha,
Ó rio da alvura
Do luar que te molha -

Montanhas que ao longe
Não têm um grito,
Todas um só monge
No claustro infinito -

Murmúrio das águas
Que ao luar que as não vê
É sombra, sem mágoas,
Macieza que é

A alma da noite,
A sombra do luar...
Ó nunca eu me afoite
Até no sonhar!..


FERNANDO PESSOA, 25 DE JULHO DE 1916


sexta-feira, 24 de julho de 2015

FAZ HOJE 85 ANOS




Entre o luar e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar,
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo
Tudo é não ter nem encontrar.

Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.


FERNANDO PESSOA, 24 DE JULHO DE 1930


quinta-feira, 23 de julho de 2015

FAZ HOJE 104 ANOS




Ondas no mar da vida,
Cada onda só é
Uma cousa vivida
Pelo olhar que a vê...
Só o olhar a separa
Do mar em que ela é nula
Nem sequer a onda pára
Senão no olhar que isola
O seu momento e uno
Ser e deixar de ser
No erróneo e oportuno
Julgá-la entre (...)



FERNANDO PESSOA, 23 DE JULHO DE 1911


quarta-feira, 22 de julho de 2015

FAZ HOJE 90 ANOS




I

Que triste, à noite, no passar do vento,
O transvasar da imensa solidão
Para dentro do nosso coração,
Por sobre todo o nosso pensamento.

No sossego sem paz se ergue o lamento
Como de universal desolação,
E o mistério, e o abismo e a morte são
Sentinelas do nosso isolamento.

"Stamos sós com a treva e a voz do nada.
Tudo quanto perdemos mais perdemos.
De nós aos que se foram não há ‘strada.

O vácuo incarna em nós, na vida; e os céus
São uma dúvida certa que vivemos.
Tudo é abismo e noite. Morreu Deus.

II

‘Stou só. A atra distância, que infinita
A alma separa de outra, se alargou.
Em mim, porém, meu ser se unificou.
Sou um universo morto que medita.

Se estendo a mão na solidão aflita,
Nada há entre ela e aquilo que tocou.
Satélite de um astro que findou,
Rodeio o abismo, ‘strela erma e maldita.

Não há porta no cárcere sem fim
Em que me vivo preso. Nunca houve
Porta neste meu ser que finda em mim.

Vivo até no passado a solidão.
Na erma noite agora o vento chove
E um novo nada enche-me o coração...

III

Evoco em vão lembranças comovidas -
Quadros, afectos, rostos e ilusões
São pó - pó frio, cinza sem visões,
E são vidas ou cousas já vividas.

Quê? Até do passado sinto vivas
As cousas que fui eu. Que solidões
Me sinto!

E, sem orgulho de ser todo o Inferno
E vivo em mim a angústia insuperável
Do ermo que se sente vácuo e eterno.


FERNANDO PESSOA, 22 DE JULHO DE 1925