terça-feira, 14 de maio de 2013

FAZ HOJE 95 ANOS





Na tarde vaga e vasta,
Cheia de vozes fora
Em que o humano contrasta
Com o afago da hora,

Levanta-se de mim
Um arrepio da alma
Um mau-sossego afim
A ter perdido a calma,

E a ânsia de abandonar
Tudo quanto eu quis,
De ir para além do mar
Sem lar nem país.

Sofre em mim um momento
A dor de não poder ser.
Tenho no pensamento
Não poder conviver.

E, gota a gota, um pranto
Quasi sem causa afaga
O meu trémulo quebranto,
E meu coração alaga.

Coração indeciso,
Quem quis que tu vivesses?


FERNANDO PESSOA, 14 DE MAIO DE 1918

segunda-feira, 13 de maio de 2013

FAZ HOJE 88 ANOS




CANÇÃO DA PARTIDA


Pousa de leve
Inda que um breve
Momento, a tua mão de neve
Sobre meu triste coração.
Ainda é cedo...
Guarda o segredo
E pousa leve, como a medo,
Sobre minha alma a tua mão.
Como é que na alma
Pousa uma palma
De mão e como é que a acalma
De toda a dor que não tem fim?
Não sei sabê-lo.
No meu cabelo,
Ao menos, pousa, com desvelo, 
Tua mão leve, de marfim.
 Que é a vida? Nada.
A sorte? Estrada
Que leva só a alma enganada
Por onde vai e onde não quer...
Que é a alma? Um sono?
Ser? O abandono
De ser, e as folhas que no outono
O ouvido sente anoitecer...


FERNANDO PESSOA, 13 DE MAIO DE 1925

domingo, 12 de maio de 2013

FAZ HOJE 100 NOS





COMPLEXIDADE

São horas, meu amor, de ter tédio de tudo...
A minha sensação desta Hora é um veludo…
Cortemos dele uma capa para o nosso saber 
Que não vale a pena viver... 
Vai alto, meu amor, o sol de termos tédio 
Até ao nojo corporal de o saber tido... 
Sei que vivo... Que horror! Tu és um mero remédio 
Que tomo para ter vivido... 
Que horror seres a mesma sempre, não te esmaga 
O saber-te A Igual? És como as outras. Vaga 
Dum mar de vagas sempre iguais é esta hora 
De ti, ó parco Outrora... 
Separemo-nos, mesmo se um de nós da ideia 
Do outro, mero eco fique do outro ou reverbero... 
Oh como o meu amar-te, ó meu amor, te odeia! 
Com que aversão te quero! 


FERNANDO PESSOA, 12 DE MAIO DE 1913

sábado, 11 de maio de 2013

FAZ HOJE 89 ANOS





Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores...
À força de diferente, isto é monótono,
Como à força de sentir, isto é monótono,
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho), 
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos,
Mas não vejo mais, 
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.
Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.

ALVARO DE CAMPOS, 11 DE MAIO DE 1934

FAZ HOJE 85 ANOS






Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Relembro, velando em modorra incómoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado - esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,

Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido - 
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
isso - e foi afinal o melhor de mim - é que nem os Deuses fazem viver...

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro -
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem esperança nenhuma,
Em sistema metafísico nenhum...
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho, 
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível para mim.


ÁLVARO DE CAMPOS, 11 DE MAIO DE 1928

sexta-feira, 10 de maio de 2013

FAZ HOJE 97 ANOS





AGUARELA DO BEM ESTAR

Tudo era campo, menos a minha alma... 
Passam balouços no meu olhar... 
Crianças (branco) a balouçar 
Em curvas aquém da tarde calma... 

‘Scondem-se os guizos... E é campo ainda 
Salvo onde há vidas ou mar (azul). 
Um riso paira de calma e sul 
Teu gesto aquela que te sonho alinda... 

Aves (incerto)... Flores por vir... 
Bancos sob árvores ao longe outrora... 
Não passa nada salvo ouro na hora... 
Fecho os meus olhos e há em mim sorrir... 

Lápis-lazáli do teu encanto... 
Janela aberta (cortina ao vento) 
Para o ar livre vem meu pensamento... 
E eu dei às cousas meu régio manto... 


FERNANDO PESSOA, 10 DE MAIO DE 1916

quinta-feira, 9 de maio de 2013

FAZ HOJE 79 ANOS





Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão,
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido,
Mas tão de leve...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida.

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?

Como se tu
Sem o querer
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério
Súbito e etéreo
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa 
Coisa feliz.


FERNANDO PESSOA 9 DE MAIO DE 1934