segunda-feira, 9 de abril de 2012

FAZ HOJE 77 ANOS








Azul, azul, azul, o mar fraqueja
Em orlas brancas pela praia fora.
Só esse som, alegre e antigo, rumoreja
No lúcido silêncio desta hora.


O mais, -  quietude, e no horizonte ralo
Um nevoeiro ou bruma ou ilusão

Que é como que um inútil intervalo
Do amplo azul que céu e águas são.


Sossega em mim, de ver, de ver, de ver,
Essa intranquilidade, a mágoa antiga
Que vem de se sentir viver,
Que vem de não poder querer
E de não ter uma alma nossa amiga.


Ah, mas essa dor,
Cheia de consciência do mutável
Da pobreza da vida e do amor
É tão antiga como o mar
E tem marés,
Cessa para recomeçar
Mais uma vez.


FERNANDO PESSOA, 9 DE ABRIL DE 1935 





domingo, 8 de abril de 2012

FAZ HOJE 101 ANOS


Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.


E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.


Por mais que me tanjas perto,
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.


A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.




FERNANDO PESSOA, 8 DE ABRIL DE 1911





sábado, 7 de abril de 2012

FAZ HOJE 83 ANOS


MARINETTI, ACADÉMICO




Lá chegam todos, lá chegam todos...
Qualquer dia, salvo venda, chego eu também...
Se nascem afinal todos para isso...


Não tenho remédio senão morrer antes,
Não tenho remédio senão escalar o Grande Muro...
Se fico cá, prendem-me para ser social...


Lá chegam todos, porque nasceram para Isso,
E só se chega ao Isso para que nasceu...


Lá chegam todos...
Marinetti, académico...


As musas vingaram-se com focos eléctricos, meu velho,
Puseram-te por fim na ribalta da cave velha,
E a tua dinâmica, um bocado italiana,f-f-f-f-f-f-f-f...


ÀLVARO DE CAMPOS, 7 DE ABRIL DE 1929

sexta-feira, 6 de abril de 2012

FAZ HOJE 82 ANOS




Cesário, que conseguiu
Ver claro, ver simples, ver puro,
Ver o mundo nas suas coisas,
Ser uma alma com um olhar por trás, e que vida tão breve!
Criança alfacinha do Universo,
Bendita sejas com tudo quanto está à vista!
Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti
E não há recanto que não veja por ti, nos recantos dos seus recantos.


ÁLVARO DE CAMPO, 6 DE ABRIL DE 1930

quinta-feira, 5 de abril de 2012

FAZ HOJE 81 ANOS




Sou um evadido,
Logo que nasci
Fechara-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Porque não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte.
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia.
Ser eu, é não ser,
Eu vivo fugido
Mas vivo a valer.

FERNANDO PESSOA, 5 DE ABRIL DE 1931

quarta-feira, 4 de abril de 2012

FAZ HOJE 83 ANOS




Ah, abram-me outra realidade!
Quero ser, como Black, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço
Quero encontrar as fadas na rua!
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras,
Desta civilização feita com pregos.
Quero viver, como uma bandeira à brisa,
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde quiserem.
Meu coração verdadeiro continuará velando,
Pano brasonado a esfinges,
No alto do mastro das visões
Aos quatro ventos do Mistério.
O Norte - o que todos querem
O Sul - o que todos desejam
O Este - de onde tudo vem
O Oeste - onde tudo finda
- Os quatro ventos do místico ar da civilização
- Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo.


ÁLVARO DE CAMPOS, 4 DE ABRIL DE 1929

terça-feira, 3 de abril de 2012

FAZ HOJE 81 ANOS



Não sei ser triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: não sei viver.
Serão as almas sinceras
Assim também, sem saber


Ah, ante a ficção da alma
E a mentira da emoção
Com que prazer me dá calma
Ver uma flor sem razão
Florir sem ter coração!

Mas enfim não há diferença.
Se flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
O que nela é florescer
Em nós é ter consciência.

Depois, a nós, como a ela,
Quando o Fado os faz passar,
Surgem as patas dos deuses
E a ambos nos vêm calcar.

'Stá bem, enquanto não vêm,
Vamos florir ou pensar.


FERNANDO PESSOA, 3 DE ABRIL DE 1931