quarta-feira, 20 de abril de 2011

FAZ HOJE 92 ANOS

Sim: existo dentro do meu corpo.
Não trago o sol ou a lua na algibeira.
Não quero conquistar mundos porque dormi mal,
Nem almoçar a terra por causa do estômago.
Indiferente?
Não: filho da terra, que se der um salto, está em falso,
Um momento no ar que não é para nós,
E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra,
Trás! na realidade que não falta.




ALBERTO CAEIRO, 20 DE ABRIL DE 1919

terça-feira, 19 de abril de 2011

FAZ HOJE 76 ANOS

A paz do dia, a luz que faz a paz, -
Tudo isso faz
Que eu um momento esqueça quem me fiz -
O poeta abstracto e infeliz,
Que escreve para dar a entender
Que não tem nada que dizer.




FERNANDO PESSOA, 19 DE ABRIL DE 1935

segunda-feira, 18 de abril de 2011

FAZ HOJE 80 ANOS

Guardo ainda, como um pasmo
Em que a infância sobrevive,
Metade do entusiasmo
Que tenho porque já tive.


Quase às vezes me envergonho
De crer tanto em que não creio.
É uma espécie de sonho
Com a realidade no meio.


Girassol do falso agrado,
Em torno do centro mudo
Fala, amarelo, pasmado
Do negro centro que é tudo




FERNANDO PESSOA. 18 DE ABRIL DE 1931

domingo, 17 de abril de 2011

FAZ 77 ANOS



Na paz da noite, cheia de tanto durar,
Dos livros que li
Que li a sonhar,a sentir, a mal meditar,
Nem vendo que os vi,


Ergo a cabeça subitamente estonteada
Do lido e do vão
De ler e vejo que não há paz na noite acabada -
Não no meu coração.


Criança, era outro...Naquele em que me tornei,
Cresci e esqueci.
Tenho de meu agora um silêncio, uma lei.
Ganhei ou perdi




FERNANDO PESSOA, ABRIL DE 1934

FAZ ESTE MÊS 78 ANOS





ISTO




Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo.Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.


Tudo que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra cousa ainda.
Essa cousa é que é linda.


Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!




FERNANDO PESSOA, ABRIL DE 1933.



FAZ 88 ANOS

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como numa cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se podia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.




ALBERTO CAEIRO, ABRIL DE 1923

sábado, 16 de abril de 2011

FAZ 86 ANOS


Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar.
Que é que me revela?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
Na noite que fica.








FERNANDO PESSOA DEZEMBRO DE 1924