domingo, 7 de junho de 2020

FAZ HOJE 92 ANOS




Tarda o verão. No campo tributário
Da nossa 'sperança, não há sol bastante,
Nem se 'speravam as que vêm, chuvas
Na estação, deslocadas.
Meu vão conhecimento do que vejo
Com o que é falso se contenta, a noite,
Em pouco dando à conclusão factícia
Do moribundo tudo.

RICARDO REIS, 7 DE JUNHO DE 1928

sábado, 6 de junho de 2020

FAZ HOJE 105 ANOS




Tirem-me os deuses
Em seu arbítrio
Superior e urdido às escondidas
Amor, glória e riqueza.

Tirem, mas deixem-me
Deixem-me apenas
A consciência lúcida e solene
Das cousas e dos seres.

Pouco me importa
Amor ou glória.
A riqueza é um metal, a glória é um eco
E o amor uma sombra.

Mas a concisa
Atenção dada
Às formas e às maneiras dos objectos
Tem abrigo seguro.

Seus fundamentos
São todo o mundo,
Seu amor é o plácido universo
Sua riqueza a vida.

A sua glória
É a suprema
Certeza da solene e clara posse
Das formas dos objectos.

O resto passa,
E teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
E inútil do Universo.

Essa a si basta,
Nada deseja
Salvo o orgulho de ver sempre claro
Até deixar de ver.

RICARDO REIS, 6 DE JUNHO DE 1915

sexta-feira, 5 de junho de 2020

FAZ HOJE 103 ANOS




Para onde vai a minha vida, e quem a leva?
Porque faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim nas trevas?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?

O meu destino tem um sentido e tem um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala,
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e que sou: não me iguala.

Não me compreendo nem no que, compreendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.

Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?
Além da minha alma, que outra alma há na minha?
Por que me deste o sentimento de um rumo
Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha

Senão com um uso não meu dos meus passos, senão
Com um destino escondido de mim nos meus actos?
Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?
Que sou eu entre quê e os factos?

Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!
Ó ilusões, se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos goze esse nada, sem fé, mas com calma,
Ao menos durma viver, como uma praia esquecida...

FERNANDO PESSOA, 5 DE JUNHO DE 1917

quinta-feira, 4 de junho de 2020

FAZ HOJE 89 ANOS




OXFORDSHIRE

Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.

Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de uma curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico este acontecimento nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.

É-se feliz na Austrália desde que lá se não vá.

ÁLVARO DE CAMPOS, 4 DE JUNHO DE 1931

quarta-feira, 3 de junho de 2020

FAZ HOJE 107 ANOS




Às vezes sou o Deus que trago em mim
Então eu sou o deus, e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.

Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo o céu
E é um mero oco céu alto.

FERNANDO PESSOA, 3 DE JUNHO DE 1913

terça-feira, 2 de junho de 2020

FAZ HOJE 95 ANOS




ELEGIA NA SOMBRA

Lenta, a raça esmorece, e a alegria
É como uma memória de outrem. Passa
Um vento frio na nossa nostalgia
E a nostalgia torna-se desgraça.


Pesa em nós o passado e o futuro.
Dorme em nós o presente. E a sonhar
A alma encontra sempre o mesmo muro,
E encontra o mesmo muro ao despertar.
Quem nos roubou a alma? Que bruxedo
De que magia incógnita e suprema
Nos enche as almas de dolência e medo
Nesta hora inútil, apagada e extrema?


Os heróis resplandecem a distância
Num passado impossível de se ver
Com os olhos da fé ou os da ânsia.
Lembramos névoa, sombras a esquecer.



Que crime outrora feito, que pecado
Nos impôs esta estéril provação
Que é indistintamente nosso fado
Como o sentimos bem no coração?


Que vitória maligna conseguimos -
Em que guerra, com que armas, com que armada?
Que assim o seu castigo irreal sentimos
Colado aos ossos desta carne errada?


Terra tão linda com heróis tão grandes,
Bom sol universal localizado
Pelo melhor calor que aqui expandes,
Calor suave e azul só a nós dado
Tanta beleza dada e glória ida!
Tanta esperança que, depois da glória,
conheceu que é fácil a descida
Das encostas anónimas da história!



Tanto, tanto! Que é feito de quem foi?
Ninguém volta? No mundo subterrâneo
Onde a sombria luz por nula dói,
Pesando sobre onde já esteve o crânio,
Não restitui Plutão a sob o céu
Um herói ou o ânimo que o faz,
Como Eurídice dada à dor de Orfeu;
Ou restituiu, e olhámos para trás


Nada. Nem fé nem lei, nem mar nem porto.
Só a prolixa estagnação das mágoas,
Como nas tardes baças, no mar morto,
A dolorosa solidão das águas.


Povo sem nexo, raça sem suporte,
Que, agitada, indecisa, nem repare
Em que é raça, e que aguarda a própria morte
Como a um comboio expresso que aqui pare.


Torvelinho de dúvidas, descrença
Da própria consciência de se a ter,
Nada há em nós que, firme e crente, vença
Nossa impossibilidade de querer.



Plagiários da sombra e do abandono,
Registramos, quietos e vazios,
Os sonhos que há antes que venha o sono
E o sono inútil que nos deixa frios.



Oh, que há-de ser de nós? Raça que foi
Como que um novo sol ocidental
Que houve por tipo o aventureiro e o herói
E outrora teve nome Portugal...



(Fala mais baixo! Deixa a tarde ser
Ao menos uma externa quietação
Que por ser fora faça meros doer
Nosso descompassado coração.



Fala mais baixo! Somos sem remédio,
Salvo se do ermo abismo onde Deus dorme
Nos venha despertar do nosso tédio
Qualquer obscuro sentimento informe.

Silêncio quasi! Nada digas! Cala
A esperança vazia em que te acho,
Pátria. Que doença de teu ser se exala?
Tu nem sabes dormir. Fala mais baixo!)


Ó incerta manhã de nevoeiro
Em que o Rei morto vivo tornará
Ao povo ignóbil e o fará inteiro -
És qualquer coisa que Deus quer ou dá?
     

Quando é a tua Hora e o teu Exemplo?
Quando é que vens, do fundo do que é dado,
Cumprir teu rito, reabrir teu Templo
Vendando os olhos lúcidos do Fado?


Quando é que soa, no deserto de alma
Que Portugal é hoje, seu sentir,
Tua voz, como um balouçar de palma
Ao pé do oásis do que possa vir?


Quando é que esta tristeza desconforme
Verá, desfeita a tua cerração
Surgir um vulto, no nevoeiro informe,
Que nos faça sentir o coração?


Quando? Estagnamos. A melancolia
Das horas sucessivas que a alma tem
Enche de tédio a noite, e chega o dia
E o tédio aumenta porque o dia vem.


Pátria, quem te feriu e envenenou?
Quem, com suave e maligno fingimento
Teu coração suposto sossegou
Com abundante e inútil alimento?


Quem fez que durmas mais do que dormias?
Quem fez que jazas mais que até aqui?
Aperto as tuas mãos: como estão frias!
Mãe do meu ser que te ama, que é de ti?


Vives, sim, vives porque não morreste...
Mas a vida que vives é um sono
Em que indistintamente o teu ser veste
Todos os sambenitos do abandono.


Dorme, ao menos, de vez. O Desejado
Talvez não seja mais que um sonho louco
De quem, por muito te ter, Pátria, amado,
Acha que todo o amor por ti é pouco.


Dorme, que eu durmo, só de te saber
Presa da inquietação que não tem nome
E nem revolta ou ânsia sabe ter
Nem da esperança sente sede ou fome.


Dorme, e a teus pés teus filhos, nós que o somos,
Colheremos, inúteis e cansados
O agasalho do amor que ainda pomos
Em ter teus pés gloriosos por amados.


Dorme, mãe Pátria, nula e postergada,
E, se um sonho de esperança te surgir,
Não creias nele, porque tudo é nada,
E nunca vem aquilo que há-de vir.


Dorme, que a tarde é finda e a noite vem.
Dorme, que as pálpebras do mundo incerto
Baixam solenes, com a dor que têm,
Sobre o mortiço olhar inda desperto.


Dorme, que tudo cessa, e tu com tudo,
Quererias viver eternamente,
Ficção eterna ante este espaço mudo
Que é um vácuo azul? Dorme, que nada sente,


Nem paira mais no ar, que fora almo
Se não fora a nossa alma erma e vazia,
Que o nosso fado, vento frio e calmo
E a tarde de nós mesmos, baça e fria -


Como - longínquo sopro altivo e humano! -
Essa tarde monótona e serena
Em que, ao morrer, o imperador romano
Disse: Fui tudo, nada vale a pena.

FERNANDO PESSOA, 2 DE JUNHO DE 1935

segunda-feira, 1 de junho de 2020

FAZ HOJE 104 ANOS




OS JOGADORES DE XADREZ

Ouvi dizer que outrora, quando a Pérsia
Tinha não sei qual guerra,
Quando a invasão ardia na Cidade
E as mulheres gritavam,
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam
O tabuleiro antigo,
E, ao lado de cada um, esperando os seus
Momentos mais folgados,
Quando havia movido a pedra, e agora
Esperava o adversário,
Um púcaro com vinho refrescava
A sua sóbria sede.

Ardiam casas, saqueadas eram
As arcas e as paredes,
Violadas, as mulheres eram postas
Contra os muros caídos,
Trespassadas de lanças, as crianças
Eram sangue nas ruas...
Mas onde estavam, perto da cidade,
E longe do seu ruído,
Os jogadores de xadrez jogavam
O jogo de xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento
Lhes viessem os gritos,
E, ao reflectir, soubessem com acerto
Que por certa as mulheres
E as tenras filhas violadas eram
Nessa distância próxima,
Inda que, no momento em que o pensavam,
Uma sombra ligeira
Lhes passasse na fronte alheada e vaga,
Breve seus olhos calmos
Volviam sua atenta confiança
Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,
Que importa a carne e o osso
Das irmãs, e das mães e das crianças?
Quando a torre não cobre
A retirada da rainha branca,
O saque pouco importa.
E quando a mão confiada leva o xeque
Ao rei do adversário,
Pouco pesa na alma que lá longe
Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro
Surja a sanhuda face
Dum guerreiro invasor, e breve deva
Em sangue ali cair
O jogador solene de xadrez,
O momento antes desse
É ainda entregue ao jogo predilecto
Dos grandes indif'rentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,
Os haveres tranquilos e avitos
Ardam e que se arranquem.
Mas quando a guerra os jogos interrompa,
Esteja o rei sem xeque,
E o de marfim peão mais avançado
Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro
E o entendermos mais
De acordo com nós próprios que com ele,
Aprendamos na história
Dos calmos jogadores de xadrez
Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,
O grave pouco pese,
O natural impulso dos instintos
Que ceda ao inútil gozo
(Sob a a sombra tranquila do arvoredo)
De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil
Tanto vale se é
A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,
Como se fosse apenas
A memória de um jogo bem jogado
E uma partida ganha
A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,
A fama como a febre,
O amor cansa, porque é a sério e busca,
A ciência nunca encontra,
E a vida passa e dói porque o conhece...
O jogo de xadrez
Prende a alma toda, mas, perdido, pouco
Pesa, pois não é nada.

Ah, sob a sombras que sem qu'rer nos amam,
Com um púcaro de vinho
Ao lado, e atentos só à inútil faina
Do jogo de xadrez,
Mesmo que o jogo seja apenas sonho
E não haja parceiro,
Imitemos os persas desta história,
E, enquanto lá fora,
Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida
Chamam por nós, deixemos
Que em vão nos chamem, cada um de nós
Sob a sombras amigas
Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez
A sua indiferença.

RICARDO REIS, 1 DE JUNHO DE 1916