terça-feira, 5 de novembro de 2019

FAZ HOJE 87 ANOS




Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

FERNANDO PESSOA, 5 DE NOVEMBRO DE 1932


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

FAZ HOJE 96 ANOS




De uma só vez recolhe
As flores que puderes.
Não dura mais que até à noite o dia.
Colhe de que lembrares.

A vida é pouco e cerca-a
A sombra e o sem-remédio.
Não temos regras que compreendamos,
Súbditos sem governo.

Goza este dia como
Se a vida fosse nele
Homens nem deuses fadam, nem destinam
Senão quem ignoramos


RICARDO REIS, 4 DE NOVEMBRO DE 1923


domingo, 3 de novembro de 2019

FAZ HOJE 102 ANOS





Sossego enfim. Meu coração deserto
Nada espera da inútil caravana.
Pouco a pouco meu ‘spírito se irmana
Com ter perdido o próprio saber incerto.

É sempre além de mim o indescoberto
Porto ao luar com que se o sonho engana.
De imperceptível o sonho, plana
Para a vida a este desacerto.

Engano a lagos de algas por achar,
Sinto vogar o barco das amadas.
A noite despe não haver luar

E como um filtro de horas encantadas
Tremem os rios, gelam as estradas
No absurdo vácuo de eu não ter que amar.

FERNANDO PESSOA, 3 DE NOVEMBRO DE 1917


sábado, 2 de novembro de 2019

FAZ HOJE 84 ANOS




Argumentos em vão.
Distraído, certo, bate
Por trás do nosso debate
O coração.

Sei bem que gostas de mim,
Sabes bem quanto te quero,
E argumentamos assim,
No tom arrastado e insincero
De quem fala só de cousas
Que nada têm connosco,
Como quem com mãos ociosas,
Num gesto alheado e manso,
Limpa o pó de um manipanso
Santo e tosco.


FERNANDO PESSOA, 2 DE NOVEMBRO DE 1935


sexta-feira, 1 de novembro de 2019

FAZ HOJE 85 ANOS





Tantos poemas contemporâneos!
Tantos poetas absolutamente de hoje -
Interessante tudo, interessantes todos...
Ah, mas é tudo quase...
É tudo vestíbulo
É tudo só para escrever...
Nem arte,
Nem ciência
Nem verdadeira nostalgia...
Este olhou bem o relevo desse cipreste...
Esse viu bem o poente por trás do cipreste...
Este reparou bem na emoção que tudo isso daria...
Mas depois?...
Ah, meus poetas, meus poemas - e depois?
O pior é sempre o depois...
É que para dizer é preciso pensar -
Pensar com o segundo pensamento -
E vocês, meus velhos, poetas e poemas,
Pensam só com a rapidez primária da asneira - é, e da pena -

Mais vale o clássico seguro,
Mais vale o romântico cantante,
Mais vale qualquer coisa, ainda que má,
Que os arredores inconstruídos duma qualquer coisa boa...
"Tenho a minha alma!"
Não, não tens; tens a sensação dela.
Cuidado com a sensação!
Muitas vezes é dos outros,
E muitas vezes é nossa
Só pelo acidente estonteado de a sentirmos.

ÁLVARO DE CAMPOS, 1 DE NOVEMBRO DE 1934