terça-feira, 4 de agosto de 2015

FAZ HOJE 81 ANOS




Dá rosas, rosas, a quem sonha rosas!
Ou não dês nada, que sonhar é tudo.
As flores naturais e preciosas
São as que eu sonho, transtornado e mudo.

Dá rosas, rosas, só em pensamento,
A quem não tem no mundo mais jardim
Que aquele que há entre o desejo e o intento
E onde haja as rosas que me dás a mim.


FERNANDO PESSOA, 4 DE AGOSTO DE 1934


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

FAZ HOJE 102 ANOS




Na vasta praia estou eu só. O mar
Enche do seu salgado (..) o ar
E de seu múrmuro (...) a hora
O sol é pleno como uma franqueza,
O horizonte é uma linha de beleza,
Sem mais que ser só uma linha agora...

E contudo que lívido, que cego
Que íntimo e nítido desassossego
Me pulsa dentro como um coração!
Que cousa como um tédio, mas mais forte
Me torna inútil ver tudo isto e a morte
Como uma obscura e fresca aspiração?

Porque é que, sendo esta hora dum veludo
De brisas e de luz me sabe tudo
A dever ser uma outra cousa... Não...
Não é o mar ou o sol ou a brisa calma
Que enche de angústia estéril a minha alma
E garras crava no meu coração.

Não... Não é mesmo o claro e azul e verde
Mistério de tudo isto que me perde
De mim e o próprio corpo me irrequieta...
Nem ideia de morte, ou dor de vida
Me chama cinza à alma e a faz ferida
Como cravada por tremente seta.

Não... Posso calar nesta hora em mim
O mar imenso e o céu sem fim
E a deserta extensão ao sol da praia.
Outra é a margem que se vai, diversa
A ânsia que me (...) e me dispersa
E como um negro sol dentro em mim raia.

Se não houvesse a Pátria, a Humanidade,
Se a vida e a morte e a dor da sociedade
Não fossem cruas para o pensamento,
Se (...) não fosse
Um amargor (...) o mel mais doce
Do sonho deste lúcido momento;

Se lá-fora, entre os homens, longe disto
Não houvesse alma, lutas, e ora um Cristo
E ora um César, levando obscuras gentes
A conquistas, revoltas, turbilhão
E sem saberem nunca p'ra onde vão
Sempre agitados, sempre inconvenientes...

Se como poeira ao vento os homens todos
Não fossem
A terra, o céu, o (...) oceano
Tudo envenena-se de eu ser humano...
Deixei metade da minha alma triste
Com eles, duvidosa entre as suas lutas
E consciente de quão sem nexo astutas

Ficasse ao menos a minha alma em frente
Apenas do Mistério omnipresente
E não vertesse sobre o horror de ver
Que não sabe o que é céu e mar e terra
A dor de não saber p'ra que é a guerra
E a paz, e o possuir e o perder...'

Nós não sabemos
Nenhum divino instinto nos aponta
O caminho social, a certa estrada
Do que grandeza ou arte (...),
(Nem sabemos qual é que deve ser)

Nem sabemos o ideal que ter devemos,
Não sabemos querer o que queremos,
Nossas palavras mais )...( de justiça
Caem sobre os povos e ei-las transtornadas
Para ficar e (...) e frias espadas
E o mundo (...) numa eterna liça.

Que defender? que combater? Que qu'rer?
Que ideal formou-nos? como o tentar ter?
Para aonde? E por que estrada? Ninguém sabe,
Ninguém... E tendo tudo isto em mim, fito
O mar sereno, o céu (...) e infinito.



FERNANDO PESSOA, 3 DE AGOSTO DE 1913


domingo, 2 de agosto de 2015

FAZ HOJE 101 ANOS



Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?

Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?

Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não há luar sobre as indecisões...

Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.

Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.

Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...

Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé[de quem, clarins anunciadores de quê?
Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...

ÁLVARO DE CAMPOS, 2 DE AGOSTO DE 1914


sábado, 1 de agosto de 2015

FAZ HOJE 84 ANOS




Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo,
E a noite chega sem que eu saiba bem,
Quero considerar-me e ver aquilo
Que sou, o que é que sou o que é que tem.

Olho para todo o meu passado e vejo
Que fui quem foi aquilo em torno meu,
Salvo o que o vago e incógnito desejo
De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
Minha atenção sobre quem fui de mim.
E nada de verdade em mim albergo
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem
Segui por dois caminhos par a par.
Fui com o mundo, parte da paisagem;
Comigo fui, sem ver nem recordar

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
Que sou diversos no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso.
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
Vários trazidos de outros mundos, e
No mesmo ponto espacial sensível
Que sou eu, sendo eu por estar aqui?

Serei eu, porque todo o pensamento
Podendo conceber, bem pode ser,
Um dilatado e múrmuro momento,
Dos tempos-seres de quem sou o viver?

FERNANDO PESSOA, 1 DE AGOSTO DE 1931