sábado, 3 de maio de 2014

FAZ HOJE 80 ANOS




Vem brando o vento quieto
Do fundo da terra e sonho.
Há um sossego completo
No que vejo e o que suponho.

Sem ser na brisa, que é nada
Só na erva mais alta há bem
Um movimento; e agrada
A maneira que ela tem.

E como se nesta calma
Surgisse um mover qualquer
Só para mostrar à alma
O sossego que ela quer.

FERNANDO PESSOA, 3 DE MAIO DE 1934


sexta-feira, 2 de maio de 2014

FAZ HOJE 104 ANOS



Embalai nos braços
(A noite é suave
E aromas dispersos
Parecem infindos)
Embalai nos braços
Os infantes lindos

E cantai-lhes triste
(A noite é de prata
E o silencio assiste
À beleza etérea)
Cantai esta triste
Melodia aérea:

'Havia uma fada
(A noite é silente
E água prateada
Treme em solidão)
Havia uma fada
Que amava um tritão...

O tritão ficara
(A noite é (…)
Como pedra rara
E Eleusis)
O tritão ficara
Dos antigos deuses.

E a fada fugira
(A noite na (…)
Em ardor suspira,
Pensamento-monge)
E a fada fugira
Do deus, ao longe.

Amaram-se, a fada
(A noite silente
É entrecortada
Dum suspiro fundo)
Amaram-se, a fada
E o tritão jocundo.

E juntos morreram
(No vento (…)
Do vento nasceram
Os primeiros ais)
E juntos morreram
Nos mares fatais.

Mas deixaram pura
(Eis a noite fresca
Que se torna escura
No morto horizonte)
Mas deixaram pura
Uma filha insonte.

E essa filha triste
(No horizonte negro
O negrume existe
Menos, era alvor)
Essa filha triste
Dum secreto amor.

Porque ela no mar
(Uma linha vaga
Do alvor (…)
O (…) doente)
Porque ela no mar
Fada (…) se sente.

E na terra tudo
(Eis quasi alva a linha
Do horizonte, e em roda
Que burburinha)
E é na terra toda
Sente-se náiade.

E por isso chora
(Esbranquecia já mais
O alvor da aurora
No nítido horizonte)
E por isso chora
Quer em mar ou monte.

E por isso canta
(É dum branco estranho
O aurorear que encanta
A alma à solidão)
E por isso canta
Com o coração.

E o silêncio faz
(O horizonte nítido
Prende a nitidez
Numa vaga cor)
O silêncio faz
Eco à sua dor

E essa voz que chora
(É dum verde vago
O nascer d'aurora
No horizonte em sombra)
E essa voz que chora
(…)

Chora a vã tristeza
(Cora levemente
Verde na incerteza
Do rubro silente)
Chora a vã tristeza
Do eterno ausente.


FERNANDO PESSOA, 2 DE MAIO DE 1910


quinta-feira, 1 de maio de 2014

FAZ HOJE 95 ANOS



Através do ruído do café cheio de gente
Chega-me a brisa que passa pelo convés
Nas longas viagens, no alto mar, no verão
Perto dos trópicos (no amontoado nocturno do navio -
Sacudido regularmente pela hélice palpitante -
Vejo passar os uniformes brancos dos oficiais de bordo).
E essa brisa traz um ruído de mar-alto, pluromar
E a nossa civilização não pertence à minha reminiscência.




ÁLVARO DE CAMPOS, 1 DE MAIO DE 1919