quarta-feira, 7 de agosto de 2013

FAZ HOJE 79 ANOS



Ah, como eu quereria
Ser como aqueles em quem
A inspiração é já poesia
E a forma toda a alma tem!...

Meu mestre Camilo Pessanha!
Como sentias? Por que modo
O que em ti é matéria estranha
Era teu natural, teu todo?

Ninguém sabe. E teus versos são
Como o que passa no sonhar
E nem é bem uma visão
E nem é bem o despertar.



FERNANDO PESSOA, 7 DE AGOSTO DE 1934

terça-feira, 6 de agosto de 2013

FAZ HOJE 79 ANOS



Música, ao contrário de tudo...
Cá fora a vida - noite e luar...
E eu, a ouvir e a sonhar,
O irmão ausente e mudo
De quanto amei e tive que deixar.

Sim, música, o cruel avesso,
Suave, contudo, de sentir
Que quanto mais eu quero ir
Para onde tudo vejo e esqueço,
Mais pesa em mim a ausência de o fruir...

Música, sim, música, um lago
Em silêncio sob o luar
E só o prazer de o olhar
Naquele vestígio de afago
Que do sentir faz modo de pensar...

Música, sempre música: dá
Mais que sentir ao coração...
Não me deixes só a emoção...
Nada há, nada há e nada há...
Dá-me um aceno que seja só perdão...

Música! E cessa porque tudo
Cessa... E há só a noite e o luar...
E eu, despertando de sonhar,
Jazo contemplativo e mudo,
E nem do que sonhei me sei lembrar.




FERNANDO PESSOA, 6 DE AGOSTO DE 1934

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

FAZ HOJE 79 ANOS



 Onde quer que o arado o seu traço consiga
E onde a fonte, correndo, com a sua água siga
O caminho que, justo, as calhas lhe darão,
Aí, porque há a paz, está o meu coração.
Bem sei que o som do mar vem de além dos outeiros
E que do seu bom som os ímpetos primeiros
Toldam de ser diverso o natural da hora,
Quando o campo a não ouve e a solidão a ignora.
Mas qualquer cousa falsa e vera se insinua
Nas árvores que são vestígios sob a lua.


FERNANDO PESSOA, 5 DE AGOSTO DE 1934


domingo, 4 de agosto de 2013

FAZ HOJE 83 ANOS



Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

FERNANDO PESSOA, 4 DE AGOSTO DE 1930


sábado, 3 de agosto de 2013

FAZ HOJE 83 ANOS



Árvore verde,
Meu pensamento
Em ti se perde.
Ver é dormir
Neste momento.

Que bom não ser
‘Stando acordado!
Também em mim
Enverdecer
Em folhas dado!

Tremulamente
Sentir no corpo
Brisa na alma!
Não ser quem sente,
Mas é, a calma...



FERNANDO PESSOA, 3 DE AGOSTO DE 1930

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

FAZ HOJE 99 ANOS




Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?

Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?

Cairás, ó matutino galo francês,
Sempre saudando a aurora? Que amos saúdas agora
Que sol de sangue no azul pálido do horizonte matutino?
Porque atalhos de sombra que caminho buscas,
Que caminho para onde?
Ó civilizações chegando à encruzilhada nocturna
D'onde tiraram o ponto-de-apoio
E donde partem caminhos curvos não sei para onde,
E não há luar sobre as indecisões...

Deus seja connosco...
Chora na noite a Senhora de [...],
Torcendo as mãos, de modo a ouvir-se que elas se torcem
No silêncio profundo.

Deus seja connosco no céu e na terra,
Ó Deusa Tutelar do Futuro, ó Ponte
Sobre os abismos do que não sabemos que seja...
Deus seja connosco, e não esqueçamos nunca
Que o mar é eterno e afinal de tudo tranquilo
E a terra grande e mãe e tem a sua bondade
Porque sempre podemos nela recostar a cabeça cansada
E dormir encostados a qualquer coisa.

Clarins na noite, desmaiando... Ó Mistério
Que se está formando lá fora, na Europa, no Império...
Tropel vário de raças inimigas que se chocam
Mais profundamente do que seus exércitos e suas esquadras,
Mais realmente do que homem contra homem e nação contra nação...

Clarins de horror trémulo e frio na noite profunda...
E o quê?... Tambores para além do mistério do mundo?
Tambores de quê... dormis deitados, dobres minúsculos sobre quê?
Passa na noite um só passo soturno do uno exército enorme...
Clarins sobrepostos mais perto na Noite...
Ó Homem de mãos atadas e levado entre sentinelas
Para onde, porque caminho, para ao pé de quem?
Para ao pé [de] quem, clarins anunciadores de quê?
Tityro, a tua flauta e os campos de Itália sob César Augusto
Ah, porque se armam de lágrimas absurdas os olhos
E que dor é esta, do antigo e do actual e do futuro,
Que dói na alma como uma sensação de exílio?
Tityro a tua flauta em Éclogas longínquas...
Virgílio a adular o César que venceu
Per populum dat juri... Um pobre em guerra,
Ó minha alma intranquila... Ó silêncios que as pontes
Sob as fortalezas antiquissimamente teriam,
Sabeis e vedes que a terra treme sob os passos dos exércitos,
Fluxo eterno e divino das ondas sob os cruzadores e os torpedeiros...


ÁLVARO DE CAMPOS, 2 DE AGOSTO DE 1914

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

FAZ HOJE 82 ANOS



Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo,
E a noite chega sem que eu saiba bem,
Quero considerar-me e ver aquilo
Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo
Que fui quem foi aquilo em torno meu,
Salvo o que o vago e incógnito desejo
De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
Minha atenção sobre quem fui de mim,
E nada de verdade em mim albergo
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
Segui por dois caminhos par a par.
Fui com o mundo, parte da paisagem;
Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
Que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso.
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
Vários trazidos de outros mundos, e
No mesmo ponto espacial sensível
Que sou eu, sendo eu por ‘star aqui?

Serei eu, porque todo o pensamento
Podendo conceber, bem pode ser,
Um dilatado e múrmuro momento,
De tempos-seres de quem sou o viver?


FERNANDO PESSOA, 1 DE AGOSTO DE 1931