terça-feira, 7 de maio de 2013

FAZ HOJE 99 ANOS





No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah!, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...

Mas Graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma coisa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos,
E deve haver muita coisa
Para termos muito que ver e ouvir...

ALBERTO CAEIRO, 7 DE MAIO DE 1914

segunda-feira, 6 de maio de 2013

FAZ HOJE 94 ANOS





ATHENA

Só tu consolas e só tu não mentes, 
Senhora do artifício natural, 
Certa, na inteligência, do que sentes, 
Tendo só por ideal o que é real. 
Em vão as ondas do Tirreno falam 
Na praia ao nosso ouvido que ilude, 
No ar da noite numa sonolência; 
Tu conheces a lei porque resvalam, 
Sabes que ritmos têm em (…) rude, 
Senhora do silêncio e da ciência. 


FERNANDO PESSOA, 6 DE MAIO DE 1919

domingo, 5 de maio de 2013

FAZ HOJE 88 ANOS





Com que vida encherei os poucos breves 
Dias que me são dados? Será minha 
A minha vida ou dada 
A outros ou a sombras? 

À sombra de nós mesmos quantas vezes
Inconscientes nos sacrificamos, 
E um destino cumprimos 
Nem nosso nem alheio! 

Porém nosso destino é o que for nosso, 
Quem nos deu o acaso, ou, alheio fado, 
Anónimo a um anónimo, 
Nos arrasta a corrente. 

Ó deuses imortais, saiba eu ao menos 
Aceitar sem querê-lo, sorridente, 
O curso áspero e duro 
Da strada permitida.


RICARDO REIS, 5 DE MAIO DE 1925

sábado, 4 de maio de 2013

FAZ HOJE 82 ANOS





Oca de conter-me 
Como a hora dói! 
Pérfida de ter-me 
Como me destrói 
O meu ser inerme! 

O meu ser sombrio! 
O minha alma tal 
Como se p’lo rio 
Do meu ser igual 
Sempre a mim, e frio 

De nocturno e meu, 
Passasse, cantando, 
Uma louca, olhando 
Dum barco p’ró brando 
Silencio do céu. 


FERNANDO PESSOA, 4 DE MAIO DE 1914

sexta-feira, 3 de maio de 2013

FAZ HOJE 79 ANOS





Vem brando o vento quieto 
Do fundo da terra e sonho. 
Há um sossego completo 
No que vejo e o que suponho. 

Sem ser na brisa, que é nada 
Só na erva mais alta há bem 
Um movimento; e agrada 
A maneira que ele tem. 

E como se nesta calma
Surgisse um mover qualquer
Só para mostrar à alma
O sossego que ela quer.


FERNANDO PESSOA, 3 DE MAIO DE 1934

quinta-feira, 2 de maio de 2013

FAZ HOJE 103 ANOS





Embalai nos braços 
(A noite é suave 
E aromas dispersos 
Parecem infindos) 
Embalai nos braços 
Os infantes lindos 

E cantai-lhes triste 
(A noite é de prata 
E o silencio assiste 
À beleza etérea) 
Cantai esta triste 
Melodia aérea: 

"Havia uma fada 
(A noite é silente 
E água prateada 
Treme em solidão) 
Havia uma fada 
Que amava um tritão... 

O tritão ficara 
(A noite é (…)
Como pedra rara 
E Eleusis) 
O tritão ficara 
Dos antigos deuses. 

E a fada fugira 
(A noite na (…)
Em ardor suspira, 
Pensamento-monge) 
E a fada fugira 
Do deus, ao longe.

Amaram-se, a fada 
(A noite silente 
É entrecortada 
Dum suspiro fundo) 
Amaram-se, a fada 
E o tritão jocundo. 

E juntos morreram 
(No vento (..)
Do vento nasceram 
Os primeiros ais) 
E juntos morreram 
Nos mares fatais. 

Mas deixaram pura 
(Eis a noite fresca 
Que se torna escura 
No morto horizonte) 
Mas deixaram pura 
Uma filha insonte. 

E essa filha triste 
(No horizonte negro 
O negrume existe 
Menos, era alvor) 
Essa filha triste 
Dum secreto amor. 

Porque ela no mar 
(Uma linha vaga 
Do alvor (…)
O (…)doente) 
Porque ela no mar 
Fada (…) se sente. 


E na terra tudo 
(Eis quasi alva a linha 
Do horizonte, e em roda 
Que burburinha) 
E é na terra toda 
Sente-se náiade. 

E por isso chora 
(Esbranquecia já mais 
O alvor da aurora 
No nítido horizonte) 
E por isso chora 
Quer em mar ou monte. 

E por isso canta 
(É dum branco estranho 
O aurorear que encanta 
A alma à solidão) 
E por isso canta 
Com o coração. 

E o silêncio faz 
(O horizonte nítido 
Prende a nitidez 
Numa vaga cor) 
O silêncio faz 
Eco à sua dor 

E essa voz que chora 
(É dum verde vago 
O nascer d"aurora 
No horizonte em sombra) 
E essa voz que chora 
(…)

Chora a vã tristeza 
(Cora levemente 
Verde na incerteza 
Do rubro silente) 
Chora a vã tristeza 
Do eterno ausente. 


FERNANDO PESSOA, DE MAIO DE 1910

quarta-feira, 1 de maio de 2013

FAZ HOJE 82 ANOS





Se penso mais que um momento
Na vida que eis a passar,
Sou para o meu pensamento
Um cadáver a esperar.

Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive ou não tive,

Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol,
E, ou desfeito e insensível,
Ou ébrio de outro arrebol,

Terei perdido, suponho,
O contacto quente e humano
Com a terra, com o sonho,
Com mês e mês e ano a ano.

Por mais que o Sol doire a face
Dos dias, o espaço mudo
Lembra-nos que isso é disfarce
E que é a noite que é tudo.

FERNANDO PESSOA, 1 DE MAIO DE 1931