Nesta grande oscilação
Entre crer e mal descrer
Transtorna-se o coração
Cheio de nada saber.
E, alheado do que sabe
Por não saber o que é,
Só um intento lhe cabe,
que é o conhecer a fé -
A fé, que os astros conhecem
Porque que é a aranha que está
Na teia que todos tecem,
E é vida que neles há.
FERNANDO PESSOA, 5 DE MAIO DE 2011
quinta-feira, 5 de maio de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
FAZ HOJE 97 ANOS
Oca de conter-me
Como a hora dói!
Pérfida de ter-me
Como me destrói
O meu ser inerme!
Ó meu ser sombrio!
Ó minha alma tal
Como se p'lo rio
Do meu ser igual
Sempre a mim, e frio
De nocturno e meu,
Passasse cantando
Dum barco p'ró bando
Silêncio do céu!
FERNANDO PESSOA, 4 DE MAIO DE 1914
Como a hora dói!
Pérfida de ter-me
Como me destrói
O meu ser inerme!
Ó meu ser sombrio!
Ó minha alma tal
Como se p'lo rio
Do meu ser igual
Sempre a mim, e frio
De nocturno e meu,
Passasse cantando
Dum barco p'ró bando
Silêncio do céu!
FERNANDO PESSOA, 4 DE MAIO DE 1914
terça-feira, 3 de maio de 2011
FAZ HOJE 77 ANOS
Vem brando o vento quieto
Do fundo da terra e sonho.
Há um sossego completo
No que vejo e o que suponho.
Sem ser na brisa, que é nada
Só na erva mais alta há bem
Um movimento; e agrada
A maneira que ela tem.
E como se nesta calma
Surgisse um mover qualquer
Só para mostrar à alma
O sossego que ela quer.
FERNANDO PESSOA, 3 DE MAIO DE 1934
Do fundo da terra e sonho.
Há um sossego completo
No que vejo e o que suponho.
Sem ser na brisa, que é nada
Só na erva mais alta há bem
Um movimento; e agrada
A maneira que ela tem.
E como se nesta calma
Surgisse um mover qualquer
Só para mostrar à alma
O sossego que ela quer.
FERNANDO PESSOA, 3 DE MAIO DE 1934
segunda-feira, 2 de maio de 2011
FAZ HOJE 78 ANOS
Faze as malas para Parte Nenhuma!
Embarca para a universalidade negativa de tudo
Com o grande embandeiramento de navios fingidos -
Dos navios pequenos, multicolores, da infância!
Faz as malas para o Grande Abandono!
E não esqueças, entre as escovas e a tesoura
A distância polícromo do que se não pode obter.
Faz as malas definitivamente!
Que és tu aqui, onde existes gregário e inútil -
E quanto mais útil mais inútil -
E quanto mais verdadeiro mais falso -
Que és tu aqui? que és tu aqui?, que és tu aqui?
Embarca, sem malas mesmo, para ti mesmo diverso!
Que te é a terra habitada senão o que não é contigo?
ÁLVARO DE CAMPOS, 2 DE MAIO DE 1933
Embarca para a universalidade negativa de tudo
Com o grande embandeiramento de navios fingidos -
Dos navios pequenos, multicolores, da infância!
Faz as malas para o Grande Abandono!
E não esqueças, entre as escovas e a tesoura
A distância polícromo do que se não pode obter.
Faz as malas definitivamente!
Que és tu aqui, onde existes gregário e inútil -
E quanto mais útil mais inútil -
E quanto mais verdadeiro mais falso -
Que és tu aqui? que és tu aqui?, que és tu aqui?
Embarca, sem malas mesmo, para ti mesmo diverso!
Que te é a terra habitada senão o que não é contigo?
ÁLVARO DE CAMPOS, 2 DE MAIO DE 1933
FAZ HOJE 80 ANOS
Das flores o não-me-esqueças
É talvez a mais pequena.
Se vens dizer-me a verdade,
Vê lá bem se vale a pena.
Uma coisa é a verdade
E outra coisa ser feliz.
Se vens dizer-me a verdade.
Vê lá bem o que ela diz.
Tudo é o que a gente quer
E o que está dito é só dito.
Se vens dizer-me a verdade,
Sabes bem se eu acredito?
FERNANDO PESSOA, 2 DE MAIO DE 1931
É talvez a mais pequena.
Se vens dizer-me a verdade,
Vê lá bem se vale a pena.
Uma coisa é a verdade
E outra coisa ser feliz.
Se vens dizer-me a verdade.
Vê lá bem o que ela diz.
Tudo é o que a gente quer
E o que está dito é só dito.
Se vens dizer-me a verdade,
Sabes bem se eu acredito?
FERNANDO PESSOA, 2 DE MAIO DE 1931
domingo, 1 de maio de 2011
FAZ HOJE 82 ANOS
Um muro de nuvens densas
Põe na base do ocidente
Negras roxuras pretensas.
Com a noite tudo acaba.
O céu frio é transparente.
Nada de chuva desaba.
E não sei se tenho pena
Ou alegria da ausente
Chuva e d noite serena.
De resto, nunca sei nada.
Minha alma é a sombra presente
De uma presença passada.
Meus sentimentos são rastros.
Só meu pensamento sente...
A noite esfria-se de astros.
FERNANDO PESSOA, 1 DE MAIO DE 1929
Põe na base do ocidente
Negras roxuras pretensas.
Com a noite tudo acaba.
O céu frio é transparente.
Nada de chuva desaba.
E não sei se tenho pena
Ou alegria da ausente
Chuva e d noite serena.
De resto, nunca sei nada.
Minha alma é a sombra presente
De uma presença passada.
Meus sentimentos são rastros.
Só meu pensamento sente...
A noite esfria-se de astros.
FERNANDO PESSOA, 1 DE MAIO DE 1929
FAZ HOJE 83 ANOS
NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria de posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário...
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, quando os escrevi, me parece -
A única coisa grande do mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poetas dos bons poetas?
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo -
Sou vulgar?
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
ÁLVARO DE CAMPOS, 1 DE MAIO DE 1928
Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria de posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário...
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, quando os escrevi, me parece -
A única coisa grande do mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poetas dos bons poetas?
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo -
Sou vulgar?
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
ÁLVARO DE CAMPOS, 1 DE MAIO DE 1928
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